Em 2017, motivada pelo clima político nos Estados Unidos após a eleição de Donald Trump e pela busca de um ambiente mais seguro para criar os filhos, a consultora americana Jaime Bancroft-Gennaro e sua família se mudaram para a Holanda. A decisão, viabilizada por uma pequena herança, parecia a realização de um antigo desejo de voltar à Europa. A história, contada em um relato pessoal à publicação Business Insider, encapsula um dilema cada vez mais comum.
A troca de um conjunto de problemas por outro é uma transação inerente à vida de expatriado. No caso de Bancroft-Gennaro, a mudança significou abandonar preocupações com a violência e simulações de ataques em escolas em troca de uma imersão cultural que, embora enriquecedora, impõe seus próprios custos, mais sutis e diários, na forma de barreiras linguísticas e de adaptação a novos costumes.
A troca calculada
A escolha por Amsterdã não foi aleatória. A cidade, que lembrava Portland, Oregon, onde a família viveu por 15 anos, oferecia uma promessa de qualidade de vida materializada na sua famosa cultura da bicicleta. Para a família, isso se traduziu em uma infraestrutura que permite independência total para os filhos e um estilo de vida onde o carro se tornou obsoleto. A sensação de comunidade, onde vizinhos se ajudam e há uma preocupação coletiva com o bem-estar alheio, contrasta fortemente com o que ela descreve como um crescente distanciamento social nos EUA.
A integração dos filhos foi uma prioridade. Matriculados diretamente em uma escola pública holandesa, e não em uma instituição internacional, eles se tornaram fluentes no idioma em seis meses. A estratégia visava criar raízes e evitar a transitoriedade típica dos círculos de expatriados. Financeiramente, a mudança também se mostrou vantajosa: o financiamento de uma casa maior na Holanda custa menos do que o aluguel que pagavam nos EUA por um imóvel inferior.
O preço da integração
Apesar dos benefícios evidentes, a adaptação cobra um preço psicológico. A barreira do idioma é o principal obstáculo. Mesmo com muitos holandeses falando inglês, Bancroft-Gennaro relata uma constante apreensão e a sensação de não conseguir expressar sua personalidade plenamente. A necessidade de pedir para que mudem para o inglês a faz sentir-se uma estranha, resultando em um comportamento mais quieto e reservado — uma versão "wallflower" de si mesma.
São as pequenas fricções do dia a dia, no entanto, que melhor ilustram o choque cultural. A saudade da rede de supermercados Trader Joe's, um ícone da conveniência americana, é um sintoma da falta de familiaridade. A ausência de conversa fiada com os caixas de supermercado e o hábito de ter que empacotar as próprias compras são detalhes que, somados, criam um ruído constante na experiência de viver em outro país. A eficiência holandesa, nesse caso, choca-se com a cultura de serviço americana.
O balanço, nove anos depois, é positivo, mas não isento de ambiguidade. A família construiu uma vida e encontrou seu "pequeno bolso no mundo", mas a sensação de ser um forasteiro persiste. Bancroft-Gennaro já contempla um novo destino na Europa quando o aniversário de uma década na Holanda chegar. A experiência demonstra que a busca por uma vida melhor é menos um destino final e mais um processo contínuo de negociação entre o que se ganha e o que se deixa para trás.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





