Por mais de um século, a teoria de Jean-Baptiste Lamarck foi relegada a uma nota de rodapé histórica na biologia, um exemplo clássico de uma ideia refutada. Agora, novas pesquisas estão forçando uma revisão desse consenso. Descobertas recentes sugerem que, em certos contextos, características adquiridas durante a vida de um organismo podem, de fato, ser transmitidas aos seus descendentes, adicionando uma nova camada de complexidade à evolução.

A tese, defendida em artigo por Pim Edelaar, professor da Universidade de Lund, não propõe uma substituição da seleção natural de Charles Darwin, mas sim uma complementação. A leitura é que a evolução opera por múltiplos caminhos, e o mecanismo darwiniano, embora central, pode não ser o único. A heresia de Lamarck, ao que parece, pode conter um grão de verdade que a ciência moderna está apenas começando a decifrar.

A sombra do rato sem cauda

A rejeição ao lamarckismo foi consolidada no imaginário científico pelo famoso experimento de August Weismann, que cortou a cauda de ratos por gerações e observou que os filhotes continuavam a nascer com o apêndice intacto. O caso parecia encerrado. A herança, ditava o dogma, residia exclusivamente nos genes, imutáveis pela experiência de vida do indivíduo. Contudo, a ciência contemporânea, munida de ferramentas moleculares, encontrou evidências que desafiam essa visão simplista.

Estudos com o verme microscópico C. elegans, por exemplo, mostram que a exposição a estressores como infecções ou falta de alimento leva à produção de pequenas moléculas de RNA. Essas moléculas, que ajudam a regular a expressão gênica, podem ser herdadas, conferindo à prole uma resposta mais eficiente aos mesmos desafios. Não se trata de herdar uma mudança anatômica, mas sim uma memória molecular que prepara a geração seguinte para o ambiente.

Do laboratório ao planeta

Este fenômeno não se restringe a vermes em laboratório. Pesquisas similares identificaram mecanismos análogos em diversas espécies. Plantas de arroz podem desenvolver resistência ao frio por meio de alterações químicas herdáveis associadas aos genes. Corais em cativeiro, quando expostos gradualmente ao calor, podem transmitir uma maior resiliência térmica a seus descendentes, um insight crucial em tempos de aquecimento dos oceanos.

A proposta de Edelaar e outros pesquisadores é que esses mecanismos de herança epigenética funcionam como um sistema de adaptação rápida. Enquanto a seleção natural opera em escalas de tempo mais longas, moldando o genoma através de mutações aleatórias e pressão seletiva, a herança de características adquiridas pode oferecer uma vantagem imediata para lidar com mudanças ambientais súbitas.

A antiga disputa entre Darwin e Lamarck está sendo reformulada. Não se trata mais de uma escolha binária, mas de reconhecer a complexidade dos sistemas biológicos. A evolução, ao que tudo indica, é mais pragmática e multifacetada do que seus primeiros teóricos poderiam imaginar, utilizando um arsenal de ferramentas para garantir a perpetuação da vida.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital