No coração de Londres, a Abadia de Westminster guarda séculos de história em suas pedras e em seus túmulos. Entre os mais de 3.000 sepultamentos de figuras notáveis — de monarcas a gênios como Isaac Newton e Charles Darwin — um sarcófago romano do século IV guardava um segredo há mais de um século: o esqueleto ali contido não pertencia ao romano para quem o caixão foi originalmente feito. Agora, o arqueólogo britânico Warwick Rodwell, com uma investigação exaustiva, traz à luz a identidade quase certa do ocupante medieval: um abade anglo-saxão, possivelmente Ælfwig.
A Reutilização de um Legado Romano
A peça central desta descoberta é a prática incomum de reutilizar um sarcófago romano para um enterro medieval. Rodwell aponta que tal feito é sem precedentes, unindo de forma tangível duas eras distintas da história londrina: a ocupação romana e a Inglaterra anglo-saxã, às vésperas da conquista normanda. O sarcófago, que carrega uma inscrição latina original de época romana, foi encontrado por trabalhadores no século XIX e, posteriormente, associado a uma cruz que indicava uma apropriação em tempos posteriores. A datação por radiocarbono de uma amostra óssea confirmou a teoria: a morte do indivíduo ocorreu entre 987 e 1052 d.C., cerca de 700 anos após o uso original do sarcófago. A inscrição romana, curiosamente, permanece exposta nas Queen's Diamond Jubilee Galleries da abadia, um testemunho silencioso de sua longa e complexa história.
O Abade Desconhecido
Rodwell concentrou sua investigação nos abades de Westminster cujos mandatos se sobrepõem ao período datado: Wulfsige (988–993), Ælfwig (993–1020) e Wulfnoth (1020–1049). O primeiro foi descartado por ter deixado a abadia para se tornar bispo em outro local. Entre Ælfwig e Wulfnoth, Ælfwig emerge como o candidato mais provável. Sua longa permanência na abadia, primeiro como monge e depois como abade por aproximadamente 27 anos, o credencia como o principal ocupante. Embora as datas exatas de nascimento de ambos os abades sejam desconhecidas, a inclinação para Ælfwig baseia-se em sua profunda e duradoura ligação com Westminster, e não em evidências diretas de seu sepultamento.
Implicações e Questionamentos
O enterro sugere que o corpo do abade foi coberto com cal e depositado em um caixão de madeira dentro do sarcófago romano. Acredita-se que o sarcófago tenha sido movido durante as obras de Henrique III na década de 1240 e reenterrado próximo à nova sacristia por volta de 1258. A questão que permanece é: por que um abade do século XI seria enterrado em um sarcófago romano reutilizado? Rodwell especula sobre a existência de uma vila romana e seu cemitério nas proximidades da abadia, ainda não descobertos, que poderiam ter fornecido o sarcófago para tal propósito. Este achado não apenas preenche uma lacuna histórica, mas também abre novas avenidas de pesquisa sobre a continuidade e as adaptações culturais na Londres medieval.
Um Diálogo Entre Eras
A descoberta na Abadia de Westminster transcende a mera identificação de um indivíduo. Ela personifica a maneira como as civilizações se sobrepõem e reutilizam o passado, transformando objetos de uma era em testemunhos de outra. O sarcófago romano, que um dia abrigou um cidadão do Império, tornou-se o leito final de um líder espiritual da Inglaterra anglo-saxã, um eco de continuidade em meio à transformação. A história deste enterro incomum nos convida a refletir sobre as camadas de tempo que coexistem em locais históricos e as narrativas que emergem quando o passado é cuidadosamente desenterrado e interpretado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





