Um mapeamento abrangente de mais de um século de dados sobre abelhas e sírfidos na Europa revela um cenário preocupante: as abelhas europeias perderam cerca de um terço de seu território ao longo dos últimos cem anos. A pesquisa, conduzida por uma equipe internacional a partir de uma vasta base de dados com mais de 4,3 milhões de registros de abelhas e um milhão de sírfidos (moscas polinizadoras que mimetizam abelhas), cobriu 88% das espécies europeias desses grupos. Os resultados, detalhados em uma reportagem do Xataka, indicam que, enquanto a distribuição das abelhas encolheu significativamente, a dos sírfidos experimentou uma expansão, especialmente nas décadas iniciais do período analisado.

A análise aponta que as abelhas mais adaptadas a climas frios foram as mais afetadas, com uma queda mais acentuada em suas populações e áreas de distribuição. Contudo, o estudo ressalta que o impacto direto das mudanças climáticas, embora presente, tem sido modesto quando comparado a outros fatores. O principal vilão identificado é a perda e fragmentação de habitat, diretamente ligada à expansão da agricultura intensiva. Estima-se que cerca de 10% das abelhas silvestres europeias já estejam em risco de extinção devido a essa pressão.

O fenômeno é agravado pela incapacidade de muitas espécies de se adaptarem às novas condições. Enquanto algumas abelhas buscam refúgio em latitudes mais ao norte, outras, como os zangões de algumas espécies (abejorros), não exibem essa capacidade de migração. Isso resulta em uma contração territorial e um "esmagamento" de suas áreas de ocorrência, pois as temperaturas ultrapassam suas tolerâncias históricas, e a falta de novos habitats viáveis leva ao desaparecimento de populações inteiras. A consequência dessa perda de biodiversidade polinizadora transcende a esfera ecológica, impactando diretamente a segurança alimentar e a economia global.

O Mecanismo da Perda Territorial

A pesquisa detalha como a agricultura intensiva, com seu uso de pesticidas e a eliminação de áreas de vegetação nativa, destrói os nichos ecológicos essenciais para a sobrevivência e reprodução das abelhas. A monocultura, por exemplo, reduz a diversidade de fontes de néctar e pólen, limitando a dieta dos insetos e tornando-os mais vulneráveis a doenças e estresse ambiental. A fragmentação do habitat cria barreiras geográficas que isolam populações, diminuindo a variabilidade genética e a capacidade de adaptação a longo prazo. O estudo destaca que a expansão dos sírfidos, em contraste, pode ser explicada por sua maior resiliência e adaptabilidade a ambientes modificados pelo homem, ou pela exploração de nichos deixados vagos pelas abelhas em declínio.

O Impacto Climático e suas Nuances

Embora a agricultura intensiva seja o fator preponderante, o estudo não ignora a influência do clima. As abelhas adaptadas a ambientes mais frios sofrem mais intensamente com o aquecimento, pois seus ciclos de vida e padrões de atividade estão intimamente ligados a temperaturas específicas. A incapacidade de migrar para regiões mais frias, devido à fragmentação do habitat ou à falta de ecossistemas adequados, agrava essa situação. Para essas espécies, o aumento das temperaturas pode significar a extinção local antes mesmo que a perda de habitat se torne o fator decisivo.

Implicações para a Segurança Alimentar

A perda de polinizadores tem implicações diretas e severas para a produção de alimentos. Um relatório da plataforma IPBES aponta que 75% das culturas alimentares globais e quase 90% das plantas silvestres com flor dependem, em alguma medida, da polinização animal. Sem abelhas e sírfidos, a produção agrícola mundial sofreria um colapso, levando a um aumento drástico nos preços dos alimentos e comprometendo a segurança alimentar em escala global. A viabilidade econômica de muitos setores agrícolas estaria em risco.

Um Futuro com Mais Natureza nos Campos

Diante desse cenário, a ciência oferece caminhos concretos para mitigar a crise. Um estudo publicado na revista Science sugere que a manutenção de uma porcentagem específica de habitat natural em paisagens agrícolas é crucial. Para sírfidos, 6% de natureza são suficientes; para abelhas solitárias, 16%; para zangões, 18%; e para borboletas, 37%. A solução não reside em abandonar a agricultura, mas em redesenhá-la, integrando elementos como bordas de campos floridos, cercas vivas naturais e pequenas áreas de vegetação autóctone entre as plantações. Essa abordagem permite a recuperação da biodiversidade sem comprometer a produção.

A resiliência dos ecossistemas europeus está sob pressão, e a tendência de declínio, embora mais acentuada em abelhas, ameaça a longo prazo até mesmo os sírfidos que hoje prosperam. A necessidade de um equilíbrio entre produção agrícola e conservação ambiental torna-se, portanto, uma urgência inadiável para garantir a sustentabilidade do planeta e a segurança alimentar das futuras gerações.

Source · Xataka