O Post Office do Reino Unido oficializou a contratação da Accenture e da OneView Commerce, em um acordo avaliado em £410 milhões, para substituir o sistema Horizon. A mudança marca o fim de uma relação de décadas com a Fujitsu, cuja tecnologia de contabilidade esteve no centro de uma série de condenações injustas contra subgerentes de correios. Segundo reportagem do The Register, o contrato visa estabilizar as operações atuais e migrar a infraestrutura para um modelo baseado em software como serviço (SaaS).
A Accenture será responsável pela transição em regime de "Walk In Take Over", garantindo a continuidade dos serviços enquanto prepara a transformação completa do negócio. O contrato da consultoria soma £269 milhões por um período inicial de cinco anos, com possibilidade de extensão. Paralelamente, a OneView Commerce, especializada em tecnologia de varejo, capturou um contrato de £141 milhões para implementar uma plataforma de gestão de inventário e atendimento ao cliente, com foco em ambientes de computação em nuvem.
O legado do sistema Horizon
O sistema Horizon, introduzido em 1999, foi projetado para automatizar a contabilidade das agências postais britânicas, mas revelou-se profundamente falho. Durante mais de uma década, erros de software geraram discrepâncias financeiras que levaram à acusação criminal de cerca de 736 subgerentes. A gravidade do caso, que destruiu carreiras e reputações, tornou-se um símbolo de falha institucional e negligência corporativa.
Uma investigação estatutária iniciada em 2021 revelou que tanto a gerência do Post Office quanto a equipe da Fujitsu tinham ciência das fragilidades técnicas do sistema. O relatório inicial da investigação, publicado no ano passado, confirmou que as falhas eram conhecidas e que a persistência das acusações resultou em perdas humanas irreparáveis, incluindo casos de suicídio. A substituição do sistema, portanto, carrega um peso simbólico que vai além da simples modernização tecnológica.
Dinâmicas de contratação e tecnologia
A escolha da Accenture e da OneView Commerce reflete uma mudança estratégica em direção a soluções de mercado mais flexíveis e modulares. Após o insucesso do Post Office em desenvolver uma solução interna, a organização optou por fornecedores que oferecem suporte a ePOS, quiosques de autoatendimento e ferramentas de engajamento digital. A transição para a nuvem, provavelmente em ambiente AWS, busca eliminar a dependência de sistemas legados que se mostraram impossíveis de auditar corretamente no passado.
O processo de licitação, que atraiu gigantes como a IBM e a Escher Software, demonstra a complexidade de reformular uma infraestrutura que sustenta uma operação nacional de grande escala. A aposta em SaaS, conforme o modelo da OneView, sugere que o Post Office pretende ganhar agilidade operacional e capacidade de adaptação às novas demandas do varejo, evitando a customização excessiva que, no passado, tornou o sistema Horizon um labirinto técnico impenetrável.
Implicações para o setor público
Este movimento levanta questões sobre a responsabilidade de grandes integradores de sistemas em contratos estatais. O caso britânico serve como um alerta global sobre a necessidade de governança rigorosa em projetos de transformação digital pública. Reguladores e órgãos de controle certamente observarão como a Accenture gerenciará a migração, dado o trauma institucional acumulado por décadas de erros no sistema anterior.
Para o ecossistema de tecnologia, o contrato destaca a importância de transparência e testes de estresse em sistemas que impactam diretamente a vida dos cidadãos. A transição não é apenas um projeto de TI, mas um processo de reparação de confiança. A capacidade de entregar uma solução estável e auditável será o teste definitivo para os novos fornecedores diante de um público e de um parlamento altamente vigilantes.
Perspectivas de estabilização
O que permanece incerto é a rapidez com que a nova arquitetura conseguirá eliminar todos os resquícios do legado da Fujitsu sem causar interrupções no atendimento. A complexidade da migração de dados e a integração entre os novos sistemas exigirão uma execução impecável para evitar novos incidentes de contabilidade.
O mercado acompanhará de perto os marcos de entrega definidos no contrato de cinco anos. A eficácia dessa modernização será medida não apenas pela eficiência operacional, mas pela capacidade da nova tecnologia de garantir a precisão e a integridade que faltaram durante o ciclo de vida do Horizon. O sucesso deste projeto pode redefinir como o governo britânico aborda a contratação de tecnologia crítica no futuro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Register





