O grupo hoteleiro Accor oficializou a entrada da sua marca boutique Handwritten Collection no mercado português com o projeto Quinta do Vale Dourado. Localizado na região de Beira Baixa, especificamente na localidade de Capinha, no concelho do Fundão, o resort de 81 unidades de alojamento tem inauguração prevista para 2028. A operação será conduzida em regime de franquia, com investimento do grupo internacional Moghrabi — estreante no setor hoteleiro europeu — e gestão a cargo da portuguesa Amazing Evolution.
O empreendimento ocupa uma área de 40 hectares e baseia sua proposta arquitetônica na fusão entre a reabilitação de estruturas históricas e novas construções de baixo impacto visual. A estrutura central do complexo será um palacete senhorial, que abrigará a recepção, biblioteca e 12 suítes, complementado pela reconversão de um antigo armazém de granito que contará com 41 quartos e um museu dedicado à produção de azeite.
Estratégia de expansão boutique
A Handwritten Collection foi desenhada pela Accor para integrar hotéis independentes que buscam manter identidades de design personalizadas, mas sob o guarda-chuva de uma rede global. Com a marca já operando mais de 50 estabelecimentos em 20 países e uma carteira robusta em desenvolvimento, a chegada ao mercado luso reflete uma tendência de diversificação do portfólio do grupo, que busca atrair o viajante em busca de experiências curadas e autênticas.
Para a Accor, o modelo de franquia aliado a gestoras locais, como a Amazing Evolution, permite uma entrada mais ágil em mercados regionais. O foco não é a padronização hoteleira clássica, mas a valorização do ativo imobiliário, transformando propriedades rurais em destinos de alto valor agregado. Essa estratégia de asset-light, onde o grupo foca na gestão da marca e na distribuição, enquanto parceiros aportam o capital, permanece como o motor principal de crescimento da companhia.
Sustentabilidade como diferencial operacional
O projeto no Fundão destaca-se por incorporar tecnologias de autossustentabilidade, incluindo um parque fotovoltaico próprio para suprir a demanda energética do complexo. A mobilidade interna será restrita, priorizando o uso de pedestres e veículos elétricos, além da instalação de pontos de recarga, atendendo a uma demanda crescente do perfil de turista consciente que busca reduzir a pegada de carbono de suas viagens.
Do ponto de vista de eficiência, a reabilitação de edifícios existentes reduz o impacto ambiental comparado a novas construções de grande escala. A integração de um centro de bem-estar e spa complementa a oferta, visando atrair fluxos de turismo de saúde e corporativo, aproveitando a localização estratégica entre Lisboa, Porto e a proximidade com a fronteira espanhola.
Tensões e oportunidades no mercado luso
A localização do resort, próxima à Serra da Estrela e a centros como Covilhã, sinaliza uma aposta na descentralização do turismo em Portugal, que historicamente concentra o volume de visitantes nas faixas litorâneas. A capacidade de atrair o mercado espanhol, dada a proximidade geográfica, será um teste para a resiliência do modelo de turismo de interior, que ainda enfrenta desafios de infraestrutura e sazonalidade.
Para os investidores, o sucesso da operação dependerá da manutenção da identidade da marca em um mercado onde a competição por hotéis de charme é intensa. A capacidade de converter o patrimônio histórico em uma experiência de luxo sustentável será determinante para a viabilidade financeira do projeto, especialmente em um cenário de custos crescentes de construção e manutenção de imóveis antigos.
O futuro do turismo de interior
Permanecem em aberto as questões sobre a sustentabilidade a longo prazo de resorts localizados fora dos eixos urbanos consolidados, especialmente no que tange à atração de talentos especializados para a região da Beira Baixa. O êxito do projeto servirá como indicador para outros grupos hoteleiros que buscam replicar modelos similares em áreas rurais do interior de Portugal.
O monitoramento da ocupação e dos padrões de serviço após a abertura de 2028 fornecerá dados valiosos sobre a disposição do consumidor em pagar por experiências de luxo sustentável em destinos menos óbvios. A trajetória da Handwritten Collection em Portugal será um dos pontos de observação para entender a consolidação do turismo boutique no país.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





