A recente alta do açúcar no mercado internacional, com as cotações se aproximando da marca de US$ 0,21 por libra-peso, levanta expectativas de lucros para as usinas brasileiras. No entanto, uma análise mais aprofundada revela que a valorização da commodity pode não se traduzir integralmente em ganhos. Werner Roger, sócio-fundador e CIO da Trígono Capital, adverte que fatores como a fixação antecipada de preços e os desafios climáticos na produção nacional podem mitigar esses lucros.

O contrato de açúcar bruto com vencimento em março de 2027, por exemplo, recuou ligeiramente para US$ 0,2098 por libra-peso em Nova York, após ter atingido US$ 0,2124 em pregões recentes, o maior patamar em 19 meses. Essa volatilidade é um reflexo das incertezas globais e dos desafios específicos enfrentados pelo Brasil, um dos maiores produtores mundiais.

Desafios Climáticos na Safra Brasileira

Roger destaca que o excesso de chuvas no Brasil tem sido um dos principais vilões para a safra de cana-de-açúcar. A umidade elevada dificulta a operação das máquinas nos canaviais, atrasando a colheita e, consequentemente, comprometendo o aproveitamento da cana. Essa situação, que se agrava com a persistência das chuvas, pode não apenas afetar a safra atual, mas também lançar sombras sobre o ciclo produtivo seguinte, caso a cana colhida não seja adequadamente processada.

A projeção de uma possível redução de cerca de 4,5 milhões de toneladas na produção de açúcar, embora apresentada como um cenário de risco por Roger e não uma estimativa consolidada, ilustra a gravidade da situação. Essa preocupação ganha contornos mais relevantes quando se observa que outros grandes produtores, como Índia e Tailândia, também enfrentam dificuldades climáticas, limitando sua capacidade de suprir uma eventual lacuna deixada pelo Brasil. Até mesmo na Europa, a produção de açúcar de beterraba está sob ameaça climática.

Reavaliação das Projeções Globais

As projeções iniciais que indicavam um crescimento robusto na produção global de açúcar e um consequente aumento nos estoques podem precisar de uma revisão drástica. Roger critica a avaliação de algumas consultorias que, em seu entender, não ponderaram adequadamente os riscos climáticos. A expectativa de um superávit pode dar lugar a um déficit relevante no próximo ano, dependendo da evolução das chuvas, da finalização da moagem brasileira e do desempenho das safras em outros países produtores. Essa incerteza climática global é um fator chave para a sustentação dos preços.

A dinâmica entre a produção de açúcar e etanol também pode ser afetada. As condições adversas de colheita e a menor recuperação de açúcar podem levar as usinas a priorizar a produção de etanol, reduzindo a oferta do adoçante no mercado. Fatores como o aumento do consumo de etanol, o crescimento das exportações e a valorização do petróleo, somados a incertezas geopolíticas no mercado de energia, reforçam a disputa pela cana disponível e podem manter a pressão sobre os preços do açúcar.

O Impacto do Hedge nas Usinas

Nem todas as usinas colherão os frutos da alta do açúcar na mesma medida. Roger chama atenção para as empresas que optaram por fixar preços antecipadamente, em níveis entre US$ 0,16 e US$ 0,18 por libra-peso. Ao fazerem isso, elas podem deixar de capturar uma parcela significativa da valorização recente da commodity, que se aproxima de US$ 0,21. Essa estratégia de hedge, embora proteja contra quedas, limita o ganho adicional em um cenário de alta.

O impacto exato varia conforme o volume de produção protegido, os preços contratados e a estratégia comercial de cada companhia. A marcação a mercado dos contratos também pode influenciar os resultados financeiros, mas seu efeito efetivo é dependente das particularidades contábeis e operacionais de cada empresa. A leitura aqui é que, embora o mercado de açúcar apresente oportunidades, a gestão de risco e a estratégia de precificação são cruciais para a rentabilidade das usinas brasileiras.

Perguntas em Aberto no Mercado

O futuro dos preços do açúcar permanece incerto, atrelado à evolução das condições climáticas no Brasil e em outros países produtores. A magnitude do déficit de oferta esperado para o próximo ano, a decisão das usinas entre açúcar e etanol, e a capacidade de execução das estratégias de hedge são fatores que merecem atenção contínua.

A volatilidade observada no mercado de commodities agrícolas é um lembrete constante da complexidade envolvida na produção e comercialização. A forma como as usinas brasileiras navegarão por essas incertezas, equilibrando proteção e potencial de ganho, definirá seu desempenho financeiro no curto e médio prazo. A análise de Roger sugere que a cautela e a estratégia são tão importantes quanto a própria valorização do produto.

A alta do açúcar para perto de US$ 0,21 por libra-peso é um sinal positivo, mas a realidade para as usinas brasileiras é mais complexa. A combinação de riscos climáticos, estratégias de hedge e a dinâmica competitiva entre açúcar e etanol moldam um cenário onde os lucros esperados podem ser reavaliados. O mercado segue atento às próximas safras e às decisões estratégicas das empresas. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times