Os fundos multimercados brasileiros que lideraram o ranking de rentabilidade em maio compartilham um denominador comum: a exposição concentrada ao mercado de tecnologia dos Estados Unidos. Segundo levantamento da Economatica, o fundo Adam Macro, da Adam Capital, destacou-se ao registrar uma alta de 17,80% no mês, performance equivalente a mais de 1.600% do CDI. O movimento ilustra uma busca por retornos em ativos globais em meio à volatilidade doméstica.
O resultado, contudo, veio acompanhado de um perfil de risco elevado. O Adam Macro e o Kapitalo Zeta, segundo e terceiro colocados no levantamento, apresentaram volatilidade anualizada superior a 12%, um patamar significativamente mais alto do que a média da indústria. Essa dinâmica reforça a tese de que, para capturar o rali da inteligência artificial, as gestoras locais estão dispostas a operar com margens de segurança mais estreitas e alavancagem em teses direcionais.
A tese da concentração em tecnologia
A estratégia vencedora da Adam Capital baseia-se na retomada de posições em ações específicas, os chamados single names. Após cinco anos de afastamento dessa abordagem, a gestora voltou a concentrar capital em papéis selecionados do setor de tecnologia americana. A tese central, defendida pelo gestor Marcio Appel, sustenta que o capital global tende a migrar para os EUA devido à revolução da IA, o que deve fortalecer o dólar e pressionar mercados emergentes.
Para a gestora, o cenário brasileiro é visto com ceticismo, com o real sendo considerado artificialmente valorizado. A alocação atual da casa reflete essa visão: comprada em tecnologia e dólar, e vendida tanto na bolsa brasileira quanto no euro. A leitura editorial é que o mercado local, sustentado por estímulos fiscais, pode enfrentar correções intensas caso a tese de desvalorização cambial se materialize conforme o esperado pelos gestores.
Mecanismos de alocação global
O Kapitalo Zeta, com cerca de 70% de sua carteira exposta ao exterior, segue uma lógica similar. A gestora aponta que os resultados corporativos robustos das empresas de tecnologia reforçaram o fluxo de capital para as bolsas americanas, validando a estratégia de internacionalização dos ativos. Esse movimento não é isolado; ele espelha o comportamento de hedge funds globais monitorados pelo Goldman Sachs, que elevaram significativamente a exposição à inteligência artificial.
O mecanismo por trás desse desempenho é a aposta na divergência entre economias. Enquanto os EUA surfam o ciclo de inovação tecnológica, gestores brasileiros utilizam multimercados para capturar a desvalorização de moedas emergentes e a inflação implícita, transformando o portfólio em uma proteção contra a fragilidade econômica interna. A volatilidade, portanto, não é apenas um subproduto, mas uma ferramenta para maximizar ganhos em um cenário de forte tendência direcional.
Implicações para a indústria de fundos
O sucesso pontual desses fundos não mascara as dificuldades estruturais da categoria. O índice IHFA, que mede o desempenho dos multimercados, tem apresentado rendimentos inferiores ao CDI no acumulado de doze meses. A indústria enfrenta uma fuga de capital persistente, com resgates líquidos totalizando R$ 6,4 bilhões apenas em maio, marcando o quarto mês consecutivo de saídas e consolidando uma tendência negativa que remonta a 2022.
A concorrência com a renda fixa isenta continua a ser o principal desafio para os gestores. Enquanto os multimercados buscam retornos em ativos globais voláteis, o investidor brasileiro médio tem migrado para produtos de menor risco e maior previsibilidade tributária. Esse descompasso entre a estratégia de alta performance e a demanda dos cotistas cria uma pressão contínua sobre a sobrevivência de estruturas de gestão que dependem de captação líquida para manter a escala.
Perspectivas e incertezas
O que permanece incerto é a sustentabilidade desse rali tecnológico e a capacidade dos gestores brasileiros de navegarem um eventual período de correção nos mercados americanos. A aposta na IA pode ser um motor de curto prazo, mas a dependência de teses macro tão específicas exige uma gestão de risco impecável para evitar perdas acentuadas em momentos de reversão de fluxo.
O mercado deve observar de perto se a performance de maio será o início de uma recuperação da classe de multimercados ou se será apenas um ponto fora da curva em um ano marcado por resgates. A capacidade dessas casas de convencer o investidor local sobre a viabilidade de seus modelos, frente à atratividade da renda fixa, permanece como a grande interrogação para o restante do exercício de 2026.
A estratégia de internacionalização provou ser o caminho para a rentabilidade neste mês, mas a volatilidade imposta aos cotistas levanta questões sobre o apetite ao risco do investidor brasileiro a longo prazo. Resta saber se o mercado de multimercados encontrará um novo equilíbrio ou se continuará a perder relevância diante de opções mais conservadoras.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





