O mundo pode deixar de investir US$ 690 bilhões anualmente em adaptação climática até 2050, segundo um novo relatório do McKinsey Global Institute (MGI). Apesar de as medidas de adaptação — como sistemas de refrigeração, irrigação e defesas contra inundações — oferecerem um retorno médio de três vezes o seu custo em perdas evitadas, o financiamento para sua implementação enfrenta barreiras significativas.

A necessidade de investimento para proteger pessoas e locais em padrões de países desenvolvidos, em um cenário de 2°C de aquecimento, é estimada em US$ 1,2 trilhão por ano. Deste total, cerca de US$ 460 bilhões (40%) estariam prontos para serem implementados, principalmente em regiões de alta renda com maior capacidade de financiamento. Os 60% restantes — aproximadamente US$ 740 bilhões — enfrentam desafios que impedem sua aplicação; desse universo, o MGI estima que US$ 690 bilhões estão efetivamente em risco de não serem investidos, distribuídos entre três categorias de barreiras identificadas pelo instituto.

Barreiras à Implementação

O MGI identificou três desafios principais que bloqueiam o fluxo de capital para a adaptação climática: a acessibilidade (affordability), a vontade e capacidade de agir, e a bancabilidade (bankability). A acessibilidade é a maior barreira, afetando medidas com custo anual de aproximadamente US$ 440 bilhões.

Em regiões de baixa renda, onde a adaptação compete com necessidades básicas como alimentação e moradia, e onde credores podem ter dúvidas sobre a capacidade de pagamento, o financiamento se torna um entrave. Para se ter uma ideia, proteger pessoas em países em desenvolvimento exigiria cerca de US$ 130 por pessoa anualmente — valor que, segundo o relatório, representa parcela expressiva da renda per capita em economias vulneráveis como Bangladesh. Na Índia e na África Subsaariana, os custos de adaptação podem chegar a 2% a 3% do PIB, com menos de 20% do investimento necessário sendo considerado pronto para implementação. Em contraste, em regiões de alta renda, os custos representam 0,3% a 0,5% do PIB, com mais da metade do investimento já preparado.

Para superar a barreira da acessibilidade, são necessárias soluções de menor custo e modelos de financiamento que alcancem famílias de baixa renda, como exemplificado pelo projeto de telhados frios reflexivos em Ahmedabad, Índia, que combinou subsídios com crédito para viabilizar a adaptação em comunidades vulneráveis.

Incentivos e Coordenação

Um segundo conjunto de barreiras, que afeta medidas com custo anual de cerca de US$ 210 bilhões, está relacionado à falta de vontade ou capacidade de agir, mesmo quando o financiamento não é o principal gargalo. Em muitos casos, os custos de medidas de adaptação recaem desproporcionalmente sobre alguns proprietários ou instituições, enquanto os benefícios são distribuídos por toda a comunidade. Isso enfraquece os incentivos para cooperação.

A proteção contra incêndios florestais, por exemplo, pode evitar perdas catastróficas, mas seu valor real só se torna evidente após um desastre. Projetos de grande escala demandam anos de coordenação entre governos, empresas e comunidades, o que pode ser um impedimento. O exemplo de Singapura, com sua rede de resfriamento distrital (district cooling network) na Marina Bay, demonstra como desafios de execução podem ser superados. A integração de tubulações de resfriamento na infraestrutura do distrito e a exigência de conexão por parte dos desenvolvedores foram cruciais para o sucesso, mesmo que isso significasse que eles tivessem que depender de um operador dedicado. Essa abordagem ilustra a importância de modelos que alinhem os interesses de diferentes partes para viabilizar projetos de adaptação de larga escala.

Financiamento e Oportunidades

Os restantes US$ 40 bilhões em necessidades de adaptação enfrentam barreiras de financiamento, mesmo quando a demanda existe. Projetos que se concentram na prevenção de perdas, em vez de na geração de receita direta, podem ter dificuldade em atrair investimentos privados.

No caso da bacia hidrográfica de Wyre, na Inglaterra, seguradoras, concessionárias e agências públicas concordaram em pagar pela proteção contra inundações que esperavam receber. Esses pagamentos criaram um fluxo de receita que viabilizou o empréstimo privado para a construção das defesas.

Para empresas, financiadores e governos, a lição é clara: a adaptação climática não é um mercado homogêneo, mas sim um conjunto de oportunidades em diferentes estágios de prontidão. Algumas podem ser aproveitadas imediatamente, enquanto outras exigem o desenvolvimento de novas tecnologias, parcerias estratégicas ou modelos de financiamento inovadores. Compreender as barreiras específicas para a implementação é o primeiro passo essencial para transformar as necessidades de adaptação em investimentos viáveis e, assim, proteger vidas e meios de subsistência em todo o mundo.

A análise do McKinsey Global Institute ressalta a urgência de se desatar os nós financeiros que impedem a adaptação climática. A disparidade entre o valor econômico da adaptação e sua viabilidade financeira para os implementadores exige soluções multifacetadas — combinando inovação tecnológica, políticas públicas e modelos criativos de financiamento. A questão central permanece: como converter o potencial de retorno em ação concreta para mitigar os impactos crescentes das mudanças climáticas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune