A necessidade de garantir a segurança das cargas marítimas levou, no passado, à adoção de soluções que, com o tempo, revelaram novos e complexos riscos. Um exemplo notório é o da farinha de peixe, um subproduto da indústria pesqueira essencial para a alimentação de animais, especialmente em aquicultura. No entanto, a natureza orgânica deste material o torna propenso à combustão espontânea devido à oxidação e decomposição, um problema que causou inúmeros incêndios em navios e instalações portuárias entre as décadas de 1950 e 1970. Relatos históricos indicam que dezenas de navios foram perdidos ou danificados, gerando prejuízos milionários e colocando em risco a vida de marinheiros e trabalhadores de porto. A gravidade da situação exigia uma intervenção eficaz e rápida para mitigar esses perigos.
Diante desse cenário alarmante, a indústria buscou e encontrou uma solução química: o etoxiquin. Anunciado por produtores de ração como a Cargill em 1967, este antioxidante, antes utilizado na preservação de borracha e frutas, foi rapidamente adaptado para tratar a farinha de peixe. A aplicação do etoxiquin demonstrou ser altamente eficaz na prevenção da combustão espontânea, levando a uma drástica redução nos incidentes reportados. A ponto de, em 1976, a Guarda Costeira dos EUA impor o tratamento obrigatório para cargas de farinha de peixe, e três anos depois, um órgão da Organização das Nações Unidas recomendar a prática para evitar incêndios. A promessa de segurança e eficiência parecia ter resolvido um problema persistente e perigoso.
Um Risco Oculto na Cadeia Alimentar
Contudo, a aparente solução para os incêndios em alto mar escondeu um problema de saúde pública de longo prazo. Estudos científicos, já a partir de 1969, apontavam para efeitos tóxicos do etoxiquin em animais de laboratório expostos a altas concentrações. Uma pesquisa britânica de 1987 detalhou que o composto causava "danos severos" e apresentava um "efeito potencialmente carcinogênico" em ratos. A preocupação se intensificou em 2015, quando a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) identificou uma impureza do etoxiquin, a p-fenetidina, como capaz de causar mutações genéticas. Essa descoberta lançou uma sombra sobre a segurança do consumo de frutos do mar provenientes de peixes criados com ração tratada com o aditivo, especialmente em um contexto onde mais da metade do pescado consumido mundialmente vem de fazendas.
A falta de consenso científico sobre a segurança do etoxiquin para consumo humano, aliada às evidências de risco, levou vários países a restringir ou proibir seu uso. A União Europeia suspendeu sua autorização para ração animal em 2017, e o Reino Unido, Noruega, Islândia e Liechtenstein seguiram o exemplo. Apesar disso, o etoxiquin, dentro de limites estabelecidos, ainda é permitido em países como Austrália, Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos, evidenciando a complexidade e a divergência global na regulamentação de aditivos alimentares.
A Dança das Alternativas e Seus Riscos
O debate em torno do etoxiquin ganhou contornos legais e midiáticos, com processos judiciais nos EUA frequentemente alegando publicidade enganosa por parte de empresas de frutos do mar que rotulavam seus produtos como "sustentáveis", apesar de conterem o aditivo. A União Europeia, ao banir o composto, citou explicitamente seu potencial risco para a vida aquática e para a saúde humana. No Canadá, a agência de inspeção de alimentos exige a rotulagem de rações com etoxiquin, mas não fiscaliza sua presença no produto final, levantando dúvidas sobre a eficácia da supervisão.
Diante da pressão regulatória e da crescente conscientização sobre os riscos, a indústria tem buscado alternativas. A própria Cargill declarou ter cessado o uso de etoxiquin em seus negócios de ração para salmão em mercados onde o composto não é autorizado. Produtores em países como o Peru, um dos maiores exportadores de farinha de peixe, já exportam 100% de seus produtos livres de etoxiquin para mercados como Europa e EUA. Uma das alternativas mais populares tem sido o butylated hydroxyanisole (BHA), preferido por seu custo-benefício e propriedades antioxidantes. No entanto, o BHA também carrega seus próprios riscos significativos: o Programa Nacional de Toxicologia dos EUA o identificou como "razoavelmente antecipado como um carcinógeno humano" já em 1991, e pesquisas japonesas associaram seu uso a tumores malignos em ratos. Recentemente, a FDA dos EUA anunciou uma reavaliação da segurança do BHA como aditivo alimentar.
Um Ciclo Perigoso na Aquicultura
A expansão contínua da aquicultura, impulsionada pela demanda global por frutos do mar, coloca a indústria em um ciclo desafiador. A transição de um problema de segurança física (incêndios) para um de saúde pública (risco carcinogênico) com o uso de aditivos químicos, e agora para a busca de alternativas que também apresentam perigos, ilustra a complexidade inerente à cadeia de suprimentos de alimentos modernos. A indústria de farinha de peixe e aquicultura encontra-se em um dilema: como garantir a sustentabilidade e a segurança de seus produtos sem comprometer a saúde dos consumidores e do meio ambiente? A resposta pode envolver não apenas a busca por aditivos mais seguros, mas também uma reavaliação fundamental dos insumos e métodos utilizados na produção de alimentos em larga escala.
A busca por soluções seguras e eficazes para os desafios da aquicultura é um processo contínuo, marcado pela necessidade de equilibrar inovação tecnológica com rigor científico e responsabilidade ambiental. As próximas décadas serão cruciais para determinar se a indústria conseguirá quebrar esse ciclo de substituição de riscos ou se continuará a navegar em águas perigosas.
Source · Grist





