A inteligência artificial deixou de ser uma promessa de eficiência para se tornar uma realidade cotidiana em escritórios de advocacia e consultorias contábeis. No entanto, essa integração ocorre de maneira fragmentada e, muitas vezes, à revelia das políticas internas das organizações. Segundo dados do relatório Future of Professionals 2026, da Thomson Reuters, 74% dos profissionais dessas áreas já utilizam IA no dia a dia, mesmo sem o aval formal de suas empresas.
Essa discrepância entre o uso individual e a estratégia corporativa cria um cenário de vulnerabilidade operacional. Enquanto a tecnologia acelera a execução de tarefas, a falta de diretrizes claras expõe informações confidenciais e compromete a qualidade da entrega, forçando uma reavaliação urgente sobre como escritórios gerem a inovação tecnológica em seus quadros.
O fenômeno da Shadow AI nas organizações
A proliferação de ferramentas de IA não autorizadas, um fenômeno conhecido como Shadow AI, é a consequência direta da inércia corporativa. Conforme o estudo, um terço dos profissionais recorre a soluções externas para suprir a falta de ferramentas oficiais, um índice que sobe para 41% em empresas consideradas lentas na adoção tecnológica. Esse comportamento revela uma contradição crítica: embora os profissionais reconheçam a necessidade de proteger dados sensíveis, a ausência de infraestrutura corporativa adequada os empurra para plataformas onde o controle da informação é inexistente.
Historicamente, o setor jurídico e tributário sempre priorizou a mitigação de riscos, mas a velocidade da IA generativa alterou essa dinâmica. O desafio atual não reside na tecnologia em si, mas na governança. Empresas que não conseguem oferecer ferramentas seguras e verificáveis estão perdendo a capacidade de monitorar o fluxo de dados, criando brechas de segurança que podem ter implicações legais graves a longo prazo.
A pressão dos clientes e o risco financeiro
O mercado está perdendo a paciência com a curva de aprendizado dos prestadores de serviço. Cerca de 78% dos clientes corporativos exigem melhorias de qualidade impulsionadas por IA, mas apenas 6% acreditam que seus fornecedores atuais estão entregando esse valor. Esse descompasso tem um impacto financeiro direto: aproximadamente US$ 143 bilhões em receitas no mercado americano estão sob ameaça de revisão, à medida que clientes buscam parceiros mais tecnologicamente avançados.
A leitura aqui é que a IA deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar um requisito de sobrevivência. Escritórios que falham em demonstrar ganhos de produtividade e segurança através da tecnologia estão, na prática, sinalizando obsolescência, o que inevitavelmente levará à perda de contratos e à reconfiguração das cadeias de fornecimento de serviços profissionais.
IA como fator de retenção de talentos
Além da pressão dos clientes, a tecnologia tornou-se um pilar na gestão de capital humano. O relatório aponta que 62% dos profissionais consideram a disponibilidade de ferramentas de IA como um fator decisivo ao avaliar uma nova oferta de emprego. A percepção de que a empresa é tecnologicamente atrasada gera desengajamento, com 24% dos profissionais admitindo que consideram mudar de carreira nos próximos dois anos devido a essa lacuna.
Isso coloca os departamentos de RH e liderança em uma posição delicada. A incapacidade de integrar IA não apenas prejudica a eficiência operacional, mas também afeta a capacidade das empresas de atrair os profissionais mais capacitados, que buscam ambientes onde a tecnologia é vista como uma aliada da produtividade, e não como uma ameaça ou um obstáculo burocrático.
Perspectivas para a governança tecnológica
O futuro próximo exigirá uma transição da fase de experimentação para a institucionalização estratégica da IA. A incerteza permanece sobre como as empresas equilibrarão a necessidade de inovação rápida com a exigência de conformidade regulatória e segurança de dados. Observar a capacidade de adaptação das lideranças nos próximos doze meses será fundamental para entender quais escritórios conseguirão consolidar sua posição no mercado.
A transição para uma estrutura de IA corporativa segura e eficiente é o grande desafio do setor para 2026. A pergunta que resta para os gestores não é mais se devem adotar a tecnologia, mas como fazê-lo antes que a fragmentação do uso interno e a insatisfação dos clientes tornem a perda de mercado irreversível.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





