A ascensão do partido populista de direita Alternative for Germany (AfD) nos estados do leste alemão tornou-se um fenômeno político inegável. Com o partido consistentemente liderando pesquisas de opinião na região e alcançando resultados eleitorais expressivos que desafiam a hegemonia de legendas tradicionais como a União Democrata-Cristã (CDU), sua força representa um desafio direto à estratégia de "muro de proteção" adotada pelos demais partidos, que visava isolar o AfD e que, evidentemente, falhou.

Francis Fukuyama, em sua análise, sugere que a explicação para o sucesso de movimentos como o AfD e o MAGA de Donald Trump nos EUA transcende a esfera puramente material. Ele argumenta que a distribuição desigual de respeito e o sentimento de desconsideração social por parte de populações que se sentem ignoradas e marginalizadas são fatores cruciais. Essa tese se aplica com particular força à Alemanha.

O Legado da Divisão Social

A base eleitoral do AfD concentra-se majoritariamente nos estados que compunham a antiga República Democrática Alemã (RDA). Após a reunificação em 1990, a Alemanha Ocidental implementou esforços significativos para integrar a economia oriental, transferindo recursos e benefícios sociais. Contudo, essa igualdade formal não se traduziu em igualdade social. Enquanto elites urbanas e cosmopolitas, muitas vezes ligadas a partidos de esquerda, ascenderam, uma profunda clivagem social se abriu entre elas e seus pares em regiões menos urbanizadas. A desindustrialização e as políticas neoliberais acentuaram essa divisão, com empregos tradicionais sendo substituídos por setores que demandam novas qualificações.

A Percepção de Desvalorização no Leste

Desde 1990, aproximadamente 2 milhões de pessoas deixaram o leste alemão, uma população que contava com apenas 16 milhões em 1989. As mudanças econômicas desmantelaram a base industrial da RDA, e, embora tenha havido novos investimentos, muitos trabalhadores viram suas carreiras e meios de subsistência abalados. A população remanescente, em muitos casos, tornou-se mais masculina, idosa e com menor nível educacional. Para além das questões econômicas, muitos orientais sentiram um estigma social sutil, manifestado em sotaques regionais e na dificuldade em dominar o inglês, contrastando com a recepção de benefícios do Ocidente.

Narrativas e Identidade Nacional

A ausência de imigração não europeia na RDA antes de 1989 significou que a população oriental não teve experiência prévia com sociedades culturalmente diversas. Em contrapartida, os alemães ocidentais passaram por um processo de educação sobre o Holocausto e o militarismo do período nazista, algo que não ocorreu de forma tão intensa no leste. Essa omissão histórica alimentou a narrativa do AfD, que prega a necessidade de os alemães se orgulharem de sua história, em vez de se sentirem perpetuamente culpados. Para jovens e homens menos escolarizados, em particular, o declínio do status social em uma cultura liberal pós-unificação contribuiu para um sentimento de ressentimento.

Implicações e Caminhos Futuros

A dinâmica observada na Alemanha espelha a dos eleitores de Donald Trump nos EUA, composta majoritariamente por votantes menos escolarizados e de áreas rurais. Em ambos os casos, jovens e idosos nostálgicos se unem contra partidos que sentem ter ignorado e desrespeitado suas preocupações. A questão central, como aponta Fukuyama, reside na dificuldade em distribuir respeito de forma equitativa, um desafio que políticas de redistribuição de recursos materiais, por si só, não conseguem resolver. A contínua sensação de marginalização social e a busca por reconhecimento identitário parecem ser os motores que impulsionam o crescimento de partidos como o AfD, exigindo uma reflexão profunda sobre as dinâmicas sociais e políticas que moldam o eleitorado.

O cenário político alemão levanta questões cruciais sobre como lidar com o descontentamento social e a busca por identidade em democracias contemporâneas. A capacidade dos partidos tradicionais de reverter essa tendência e de reconectar-se com eleitores que se sentem desconsiderados será fundamental para o futuro da estabilidade política na Alemanha e, possivelmente, em outras democracias ocidentais que enfrentam desafios semelhantes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Persuasion