Economistas consultados pelo Ministério da Fazenda deram um voto de confiança, ainda que parcial, à gestão fiscal do governo, mas a conta final continua preocupante. Segundo o mais recente relatório Prisma, divulgado nesta terça-feira, o mercado melhorou suas projeções para o déficit primário em 2026 e 2027. Ao mesmo tempo, porém, piorou as estimativas para a dívida pública, sinalizando que os esforços na ponta do resultado primário podem ser insuficientes para estabilizar a trajetória do endividamento.

O custo do dinheiro

Os números revelam uma dinâmica de dois gumes. A mediana das expectativas para o déficit primário de 2026 caiu de R$ 59,1 bilhões para R$ 52,3 bilhões. Para 2027, a melhora foi de R$ 55 bilhões para R$ 45,3 bilhões. A leitura é que o mercado acredita em alguma capacidade de controle de despesas e aumento de arrecadação. O otimismo, contudo, para por aí. Na outra ponta, a projeção para a dívida bruta do governo subiu para 83,2% do PIB em 2026 e saltou para 87% em 2027.

A explicação para esse paradoxo reside no custo do serviço da dívida. A própria equipe econômica do governo, segundo a reportagem do Money Times, aponta o nível elevado da taxa Selic como o principal vetor de pressão. Mesmo com uma melhora no resultado primário — a diferença entre receitas e despesas, sem contar juros —, o gasto nominal para rolar a dívida segue corroendo qualquer avanço fiscal, empurrando o endividamento total para cima.

Entre a meta e a realidade

As projeções do mercado também expõem a distância entre o plano do governo e a percepção dos agentes econômicos. As metas oficiais preveem um superávit de 0,25% do PIB em 2026 e de 0,50% em 2027. Os números do Prisma, mesmo após a revisão positiva, ainda apontam para déficits significativos em ambos os anos. Na prática, o mercado sinaliza que não acredita na entrega das metas fiscais prometidas, mesmo com a margem de tolerância prevista no arcabouço.

Essa descrença tem implicações diretas. Ela mantém a pressão sobre as expectativas de inflação e, consequentemente, sobre a própria taxa de juros, criando um ciclo vicioso. Enquanto o resultado primário não for robusto o suficiente para convencer o mercado da sustentabilidade da dívida, o custo de financiamento do Estado permanecerá alto, dificultando o próprio ajuste.

O relatório Prisma, assim, funciona menos como uma previsão e mais como um termômetro da credibilidade da política econômica. Ele reflete um mercado que reconhece o esforço, mas que, ao fazer as contas, conclui que a dinâmica da dívida ainda aponta para uma trajetória explosiva.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times