O estúdio Además Arquitectura concluiu recentemente a Casa Alba II, uma residência de 248 metros quadrados localizada no bairro de Ezeiza-Canning, em Buenos Aires. O projeto se destaca pela implementação de um muro perimetral curvo que não apenas delimita o terreno de 0,3 acre (aproximadamente 1.200 metros quadrados), mas funciona como o principal dispositivo arquitetônico para garantir a privacidade dos moradores.
Segundo reportagem da Dezeen, a residência explora uma abordagem introspectiva, inspirada no legado de Luis Barragán, ao voltar-se para si mesma em vez de buscar uma conexão direta com a paisagem suburbana externa. O muro atua como um filtro visual e espacial, organizando a circulação e as aberturas da casa de forma controlada.
A centralidade do muro como dispositivo
A escolha do muro como elemento central rompe com a lógica convencional de fachadas abertas. Ao distanciar a residência dos arredores, os arquitetos conseguiram criar um mundo interior atmosférico, onde a luz natural é refletida indiretamente para o interior através de janelas estratégicas. O muro, portanto, deixa de ser um limite secundário para se tornar a espinha dorsal que organiza vistas e entradas de luz.
O programa da casa, concluído em 2024, dispõe-se em volumes diagonais em relação à rua, orientados de norte a sul. Essa disposição não é meramente estética, mas funcional, permitindo que a luz solar penetre nos espaços de convivência de maneira controlada, enquanto a estrutura de concreto aparente mantém a clareza construtiva e a continuidade material em todo o projeto.
Mecanismos de conforto térmico e espacial
Além da função de privacidade, o muro contribui significativamente para a eficiência energética da residência. A massa térmica do concreto atua como um regulador de temperatura, mantendo o ambiente estável durante os meses mais frios. Durante o verão, a ventilação cruzada é favorecida pelo desenho dos pátios norte e sul, que atraem brisas frescas através da piscina para o interior da casa.
O uso de uma paleta de materiais reduzida, focada quase exclusivamente no concreto aparente, intensifica a percepção das texturas e sombras. A introdução de pisos e mobiliários em tons escuros cria um contraste intencional, que reforça a volumetria da casa e evidencia a precisão geométrica exigida por um projeto que dispensa adornos supérfluos.
Tensões entre refúgio e expansão
O projeto da Casa Alba II reflete uma tendência crescente na arquitetura contemporânea de Buenos Aires, onde a busca por segurança e privacidade em áreas suburbanas não resulta necessariamente em um isolamento hostil. Ao equilibrar a natureza introspectiva da habitação com aberturas que permitem a entrada de luz e ventilação, o estúdio propõe uma moradia que funciona simultaneamente como um refúgio e um espaço expansivo.
Essa abordagem desafia a ideia de que o design residencial precisa estar sempre voltado para o exterior. Para os moradores, a experiência cotidiana é mediada pela relação entre o concreto e a luz, transformando a rotina em uma sequência de espaços que se relacionam diretamente com a condição perimetral imposta pelo muro, sem sacrificar o conforto térmico ou a qualidade espacial.
O futuro da arquitetura introspectiva
Permanecem em aberto as implicações de longo prazo dessa tipologia de design em contextos urbanos densos, onde a necessidade de privacidade pode colidir com a vitalidade das ruas. A Casa Alba II serve como um estudo de caso sobre como a restrição formal pode, paradoxalmente, ampliar as possibilidades de vivência doméstica.
O sucesso dessa estratégia dependerá da capacidade de futuros projetos em replicar essa precisão geométrica sem cair na monotonia. Observar como o concreto envelhecerá e como a vegetação do entorno se integrará a essa estrutura monolítica será essencial para entender o impacto duradouro dessa abordagem introspectiva no ecossistema arquitetônico argentino. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





