A infraestrutura de telecomunicações costuma ser invisível ao público, ganhando atenção apenas quando o serviço falha. Allison Kirkby, CEO da BT, trabalha para mudar essa percepção ao alinhar a tecnologia de rede com a relevância cultural. Segundo reportagem da Fortune, a executiva utiliza parcerias esportivas, como a recente colaboração com a UEFA, não apenas como marketing, mas como demonstração prática da resiliência e alcance das redes da empresa em eventos nacionais de grande escala.
Kirkby assumiu o comando da BT em fevereiro de 2024 e, desde então, a companhia viu suas ações valorizarem significativamente, com lucros antes dos impostos na casa de US$ 1,9 bilhão no ano fiscal de 2026. A estratégia reflete uma visão de gestão que trata os diferentes braços da empresa como um time de futebol, onde a alocação de capital precisa ser ajustada conforme a necessidade de ataque ou defesa.
A metáfora do campo na gestão de ativos
Para Kirkby, a gestão de uma operadora complexa exige o pensamento de um treinador. A BT opera sob quatro marcas principais — BT, EE, Plusnet e Openreach — e a CEO identifica que houve uma concentração excessiva de investimentos na marca EE nos últimos anos. Com cerca de 25 bilhões de libras direcionados à expansão de fibra e redes móveis, a infraestrutura básica está consolidada, mas a marca BT e o segmento de negócios ficaram subinvestidos.
O ajuste de rota atual envolve fortalecer a marca BT para extrair maior valor da infraestrutura já instalada. A analogia da executiva é clara: a rede de fibra representa a defesa do time, enquanto o foco agora é investir em áreas que atuem como atacantes, capazes de converter a robustez da rede em crescimento de receita e participação de mercado. Esse movimento de reequilíbrio interno é fundamental para preparar a empresa para a demanda crescente por conectividade de alta performance.
O desafio da infraestrutura nacional
As ambições de Kirkby vão além dos resultados financeiros da BT, tocando na responsabilidade da empresa como pilar da infraestrutura crítica britânica. A executiva argumenta que o Reino Unido sofre com um mercado de telecomunicações excessivamente fragmentado, o que gera riscos de resiliência. Para ela, o cenário ideal para um país com infraestrutura digital de ponta seria a existência de poucos players dominantes em fibra e dispositivos móveis.
Essa visão pragmática inclui a transição definitiva para tecnologias modernas, como a desativação do sistema de telefonia fixa tradicional, programada para janeiro de 2027. O papel da BT, na visão da CEO, envolve também educar comunidades sobre o uso de serviços digitais essenciais, como bancos e agendamentos médicos online, garantindo que o progresso tecnológico seja acompanhado pela inclusão social necessária.
Tensões competitivas e o futuro digital
A estratégia de Kirkby enfrenta o desafio de equilibrar a competição de mercado com a necessidade de investimentos massivos em infraestrutura. Ela defende uma estrutura de mercado que incentive o retorno justo para quem assume o risco de investir em redes de longo prazo. A leitura editorial é que o setor de telecomunicações vive uma encruzilhada: ou se consolida para financiar a próxima geração de conectividade, ou corre o risco de estagnação diante da crescente demanda por IA e processamento de dados.
Para os reguladores e concorrentes, o posicionamento da BT sinaliza uma postura mais assertiva e menos focada apenas em tarifas. A integração da tecnologia com o cotidiano do consumidor, mediada pela autoridade técnica da empresa, sugere uma tentativa de blindar a companhia contra a comoditização extrema do serviço, transformando a operadora em uma marca indispensável para a economia digital britânica.
O que observar na trajetória da BT
O sucesso da gestão de Kirkby será medido pela capacidade de manter a promessa de uma rede resiliente enquanto navega pelas pressões de um mercado competitivo. A transição para o fim das linhas fixas servirá como um teste de fogo para a liderança da empresa em termos de execução operacional e gestão de stakeholders.
O mercado observará se a aposta em "atacantes" — ou seja, novas frentes de crescimento comercial — será suficiente para justificar o capital investido na rede. O desafio da executiva permanece em provar que a escala da BT pode ser convertida em impacto positivo sem os riscos operacionais que grandes empresas de infraestrutura costumam enfrentar.
O futuro da BT parece depender menos de inovações disruptivas e mais da disciplina na execução e da capacidade de tornar a infraestrutura algo que o cidadão comum valorize como parte integrante de sua vida moderna. A execução dessa visão definirá se a empresa conseguirá, de fato, ditar os rumos da digitalização britânica nos próximos anos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





