A popularização da inteligência artificial generativa promete uma disrupção profunda no varejo, mas com efeitos assimétricos entre os mundos digital e físico. Na visão de Rafael Sales, CEO da ALLOS, a maior operadora de shopping centers do Brasil, a IA deve acirrar a competição no e-commerce a um nível predatório, ao mesmo tempo em que pode se tornar uma ferramenta estratégica para fortalecer a principal vantagem do varejo físico: a experiência.
Em análise durante um evento do InfoMoney, Sales argumentou que o surgimento de "agentes de IA" — sistemas autônomos capazes de pesquisar, comparar e executar compras — tende a comoditizar o varejo online, reduzindo a disputa a uma guerra de preços. Nesse cenário, os shoppings preservam um ativo que a tecnologia não replica: o espaço físico como destino de lazer e convivência. A tese é que, para a ALLOS, a IA servirá menos para cortar custos e mais para tomar decisões mais inteligentes sobre como potencializar esse ativo.
A vantagem analógica na era digital
A visão de Sales desenha um futuro onde o e-commerce se torna um ambiente de eficiência máxima e margens mínimas. Com agentes de IA otimizando cada compra para o menor preço e a melhor condição, a lealdade à marca e a experiência de navegação perdem peso. A competição se tornaria, em suas palavras, "muito mais dura" para quem opera exclusivamente online. O campo de batalha digital seria nivelado por algoritmos, tornando a diferenciação uma tarefa hercúlea.
Em contrapartida, o varejo físico mantém sua dimensão social e sensorial. "O físico ainda tem a ver com o prazer de passear e fazer compras", afirmou o executivo. Para uma empresa como a ALLOS, que já opera com margens elevadas, o ganho com IA não está na eficiência operacional pura, mas na capacidade de refinar a estratégia. A tecnologia permite analisar volumes massivos de dados para entender o comportamento do consumidor, otimizar o mix de lojistas e desenhar campanhas mais assertivas, algo que historicamente sempre foi um desafio para a gestão de shoppings.
O dilema da produtividade e da renda
O uso da IA na ALLOS, portanto, é visto como um movimento para aprimorar a agilidade e a qualidade das decisões comerciais. Conhecer a fundo o frequentador de cada empreendimento, seus hábitos e preferências, a um custo muito menor, permite à companhia ser mais ágil na alocação de espaços e na negociação com lojistas. A tecnologia entra como uma camada de inteligência sobre o negócio principal, não como um substituto para ele.
Contudo, Sales também aponta para o que chama de "copo meio vazio". A mesma IA que gera ganhos de produtividade pode, a longo prazo, erodir a base de consumo. A substituição de empregos de média qualificação, os chamados white collar, por sistemas inteligentes levanta uma questão fundamental: quem terá renda para consumir se uma parcela significativa da força de trabalho for deslocada? "Essa talvez seja a minha dúvida", admitiu, ponderando sobre o impacto sistêmico no poder de compra.
No fim, a estratégia da ALLOS parece ser usar a IA para se blindar dos efeitos mais corrosivos da própria tecnologia sobre o varejo. A aposta é que, enquanto o online se torna um campo de batalha de algoritmos, o espaço físico bem gerenciado se consolida como um oásis de experiência. Para o investidor, porém, o CEO lembra que o desafio imediato no Brasil é outro: a concorrência com o juro real, que "machuca" a avaliação dos ativos e segue sendo o principal termômetro para o setor.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney




