A cena é familiar para muitos: a euforia da formatura, a promessa de um futuro brilhante, e, logo em seguida, a dura realidade de um mercado de trabalho desafiador. Para Celia Krefter, a transição pós-universitária foi marcada por uma decisão incomum: aceitar um cargo administrativo no departamento de teatro de sua própria faculdade. O que começou como uma piada interna — a vontade de nunca sair daquele ambiente acolhedor — tornou-se uma realidade que, embora estranha, ofereceu um fechamento inesperado.

O contexto pandêmico adicionou uma camada extra de complexidade à experiência de Krefter. Com metade de sua graduação vivida em formato remoto ou híbrido, a sensação de ter sido privada de uma experiência universitária completa era palpável. A ideia de sair sem ter vivenciado tudo o que a universidade tinha a oferecer gerou uma hesitação, um apego ao passado que a levou a buscar estabilidade e familiaridade em um emprego dentro dos mesmos corredores que um dia chamou de lar.

O Refúgio na Familiaridade

A oportunidade de trabalhar na alma mater surgiu como um bálsamo em meio à incerteza. Em teoria, o cargo de administradora do departamento de teatro oferecia estabilidade financeira, um salário melhor que o de funções similares em teatros comerciais, e a flexibilidade para continuar desenvolvendo sua carreira como diretora e escritora freelancer. Mais do que isso, era um retorno a um ambiente que ela conhecia profundamente, cercada por professores que se tornaram mentores e amigos. Era uma chance de reviver, de uma forma diferente, a conexão com o lugar que moldou seus anos formativos.

A experiência, no entanto, não foi isenta de melancolia. A autora relata sentir uma pontada de ciúme ao observar as novas gerações de estudantes vivenciarem as experiências que ela sentia ter perdido, como viagens de campo para produções teatrais ou intercâmbios. Havia uma constante comparação com seu próprio passado como estudante e uma inveja sutil dos recém-formados que pareciam prontos para conquistar o mundo. Essa sensação de estar presa entre o passado e o futuro, de não pertencer mais totalmente ao ambiente estudantil, mas ainda não estar totalmente pronta para o mundo exterior, criava um paradoxo emocional.

A Doce Alienação

A dinâmica de trabalhar em um ambiente onde se foi estudante é inerentemente complexa. Krefter descreve momentos de "embaraçosa alienação", ecoando a famosa cena de "Frances Ha", onde a protagonista retorna à sua alma mater e é confrontada com a realidade de que seu tempo como estudante acabou. Trabalhar ao lado de ex-professores, agora colegas, e interagir com alunos que poderiam ser seus irmãos mais novos, criava uma ponte tênue entre o passado e o presente. A nostalgia era constante, mas misturada com a necessidade de seguir em frente e assumir novas responsabilidades.

Essa dualidade, porém, foi fundamental para seu desenvolvimento. Ao longo de quatro anos, Krefter não apenas geriu as operações do departamento, mas também produziu dezenas de peças, aumentou a visibilidade das produções universitárias e construiu relacionamentos profissionais valiosos. Mais importante, ela ajudou a moldar a próxima geração de artistas, encontrando satisfação em guiar outros na jornada que ela mesma estava tentando concluir. A familiaridade do ambiente, antes uma fonte de estagnação, tornou-se um terreno fértil para o crescimento e a consolidação de suas habilidades.

Um Novo Começo, Não um Retorno

A saída de Krefter da alma mater não foi planejada, mas sim uma consequência de uma reestruturação departamental. Embora o fim do emprego tenha sido doloroso, ele também trouxe um alívio inesperado. A decisão, imposta por fatores externos, permitiu que ela deixasse o "palco" no auge, sem a angústia de ter que tomar a difícil decisão de partir por conta própria. Essa saída forçada, paradoxalmente, foi o empurrão que faltava para que ela se sentisse verdadeiramente pronta para o próximo capítulo.

A experiência de trabalhar na universidade após a graduação, com todas as suas complexidades emocionais e profissionais, funcionou como uma segunda formatura. Desta vez, no entanto, a sensação não era de incerteza, mas de preparação. A autora percebeu que havia esgotado o que podia aprender naquele ambiente, que tanto ela quanto a instituição haviam mudado. Foi o momento de aplicar o conhecimento adquirido, mantendo o carinho pelo lugar que a ensinou tanto, mas sem se prender a ele.

A Lição da Partida

A jornada de Krefter ressalta a importância do encerramento de ciclos. Para muitos, a graduação é apenas o início de um processo de transição que pode ser prolongado e confuso. Trabalhar na alma mater, embora agridoce, permitiu-lhe confrontar sentimentos de incompletude e ansiedade diante do futuro, transformando-os em confiança e clareza. A experiência, longe de ser um retrocesso, foi um trampolim, uma forma de amadurecimento que a preparou para os desafios e oportunidades de uma carreira autônoma como escritora e diretora.

Ao final, a pergunta que fica é: quantas vezes precisamos revisitar nossos passados para finalmente abraçar o futuro? A história de Krefter sugere que, às vezes, o caminho mais direto para seguir em frente é dar um passo — ou quatro anos — para trás, em um lugar que nos conhece tão bem quanto nós mesmos. A alma mater, nesse sentido, não é apenas um lugar de aprendizado, mas um espaço de cura e preparação, onde a segunda formatura acontece não com um diploma, mas com a certeza de estar pronto para o mundo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider