Almería, uma província no sul da Espanha, é abençoada com um dos maiores recursos solares do planeta. Suas paisagens áridas e a abundância de horas de sol ao longo do ano a tornam um local privilegiado para a instalação de usinas de energia fotovoltaica. Em junho de 2026, a província já contava com 1.742,9 MW de potência renovável instalada, sendo 1.220 MW dedicados à energia solar, um aumento expressivo em relação aos 285,9 MW de 2021. Projetos adicionais, somando centenas de megawatts, estão em diversas fases de desenvolvimento, prometendo consolidar Almería como uma potência em energia limpa.

O Gargalo da Rede: Quando a Energia Vira Problema

Apesar do potencial solar inegável, Almería enfrenta um paradoxo: a energia gerada em excesso se torna um problema. A rede elétrica, responsável por transportar essa eletricidade, não possui capacidade para absorver toda a produção. Redes de alta tensão, comparadas a estradas, têm um número limitado de "pistas" para o fluxo de energia. Quando a produção solar atinge seu pico, especialmente nas horas de maior incidência solar, o sistema se sobrecarrega. Para evitar colapsos e garantir a estabilidade, o operador da rede, a Red Eléctrica, é forçado a reduzir a produção das usinas solares. Esse fenômeno, conhecido como "curtailment", significa que a energia gerada não pode ser injetada na rede, resultando em perdas significativas para os produtores.

Tabernas: Um Exemplo Extremo de Desperdício

Um dos casos mais emblemáticos dessa limitação é a localidade de Tabernas, onde o desenvolvimento da energia solar fotovoltaica se tornou uma "absoluta ruína". Segundo dados citados pela imprensa local, o nó de rede em Tabernas, com uma subestação de 400 kV atendendo a várias plantas fotovoltaicas, tem registrado um percentual de curtailment superior a 41%. Isso significa que quase metade da energia solar produzida na região é simplesmente desperdiçada, pois a rede não tem como escoá-la. A física, neste caso, "não dá mais de si", evidenciando a urgência de uma expansão infraestrutural que acompanhe o avanço da capacidade de geração.

Investimento Insuficiente e Futuro Incerto

Guillermo Casquet, delegado de Economia, Hacienda e Fondos Europeos da Junta em Almería, classificou os planos atuais de investimento na rede como "insuficientes". Ele lamenta que a província não esteja recebendo o aporte financeiro necessário para explorar plenamente seu potencial como centro de energia renovável. A capacidade de evacuação disponível é o principal entrave, impedindo que o crescimento da capacidade solar de Almería acompanhe o de outras províncias andaluzas, como Jaén ou Sevilha. A situação exige um planejamento de rede mais ambicioso e investimentos vultosos para que o sol abundante de Almería se converta, de fato, em uma bênção e não em um "quebracabeça" energético.

O Desafio da Expansão

A capacidade de Almería para gerar energia solar é um ativo valioso, mas seu pleno aproveitamento depende intrinsecamente da capacidade da rede de distribuição. A limitação atual não apenas causa perdas econômicas diretas para os investidores, mas também representa um desperdício de um recurso limpo e abundante. A questão central agora é se os investimentos futuros serão suficientes e ágeis para equiparar a infraestrutura à ambição energética da região. A falta de ação pode comprometer não apenas o desenvolvimento local, mas também as metas de transição energética da Espanha como um todo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka