O silêncio nos corredores universitários nem sempre é de estudo e reflexão. Por vezes, ele esconde uma tensão crescente, um mal-estar que se manifesta de formas sutis e, por vezes, avassaladoras. Professores e funcionários de instituições de ensino superior em todo o mundo relatam vivenciar um ambiente de trabalho hostil, onde o assédio se tornou uma realidade alarmante. Um estudo internacional, conduzido por pesquisadores como Zahra Moradi e Deborah Circo, aponta para taxas de bullying que chegam a 68% em algumas universidades, um número que rivaliza com profissões de alto estresse como os serviços de emergência e supera significativamente a média de outros ambientes de trabalho.

O assédio no ambiente acadêmico se apresenta de duas faces: a vertical, vinda de colegas e superiores, e a horizontal, vinda dos próprios alunos. Esta última, em particular, tem se mostrado um desafio crescente. A pesquisa define assédio no local de trabalho como atos prejudiciais de maus-tratos que ultrapassam a mera incivilidade, cruzando a linha do dano intencional. São comportamentos que qualquer pessoa razoável reconheceria como inaceitáveis. Enquanto o assédio geralmente segue a hierarquia de poder – do chefe para o subordinado –, o bullying por parte de estudantes em busca de melhores notas inverte essa dinâmica. Os pesquisadores o denominam "contrapower harassment", onde indivíduos com menor poder formal visam aqueles com maior autoridade.

O peso da pressão por notas

O estudo, publicado no Journal of Multidisciplinary Research and Practice, revela que cerca de 30% dos respondentes foram pressionados por estudantes para obterem melhores notas. As táticas empregadas são variadas e preocupantes: ameaças de apelação de notas, reclamações maliciosas, avaliações online negativas, manipulação emocional e intimidação. Essas pressões não afetam a todos de maneira igual. Professores e funcionários que pertencem a grupos minoritários, como pessoas negras, indígenas ou de outras etnias, são alvos mais frequentes. Docentes em início de carreira, assim como staff mais jovem, tendem a sofrer mais assédio de colegas, enquanto professores seniores relatam ser mais visados por alunos em relação às notas. Essa inversão da hierarquia de poder, onde o aluno com menos autoridade formal assedia o professor com mais, cria um ambiente tóxico que pode ter consequências devastadoras.

Impacto na integridade acadêmica e no bem-estar

O assédio acadêmico não é apenas uma questão de bem-estar individual; ele ataca a própria integridade das instituições de ensino superior. Um ambiente onde os professores temem ser alvo de reclamações infundadas ou manipulação emocional para alterar notas pode comprometer a objetividade da avaliação e a qualidade da educação oferecida. A pressão constante pode levar a problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, diminuir a satisfação no trabalho e reduzir a produtividade dos educadores. A reputação das instituições também pode ser severamente afetada, assim como a experiência educacional dos próprios alunos, que podem se acostumar a um ambiente onde a pressão e a manipulação são normalizadas.

A metodologia e o que ainda falta saber

A pesquisa envolveu 189 professores e funcionários de universidades no Canadá, Estados Unidos e Reino Unido, que responderam anonimamente sobre as formas de maus-tratos vivenciadas. Enquanto as questões relacionadas a colegas focaram em cargas de trabalho excessivas, prazos irrealistas e informações retidas, a pressão por notas por parte dos alunos emergiu como um problema mais frequente. Apesar dos achados, lacunas permanecem na compreensão das causas profundas desse assédio. Estudos longitudinais que acompanhem os mesmos professores ao longo de vários anos seriam cruciais para entender como o assédio por notas evolui e se ele leva à evasão ou à perda de confiança nas instituições. A hipótese é que esse tipo de assédio escala quando se mostra eficaz, desgastando os professores até que cedam ou abandonem seus postos.

Um chamado à mudança

O assédio no trabalho é uma forma de violência, e seu dano, embora psicológico, é real. A mudança começa com a imposição de padrões de conduta mais elevados para todos, desde os estudantes que iniciam sua jornada acadêmica até os administradores e líderes seniores comprometidos em fazer cumprir regras de respeito mútuo. É preciso testar intervenções eficazes e medir seu alcance em diferentes contextos universitários. O diálogo aberto, onde as experiências dos professores são ouvidas em suas próprias palavras, pode adicionar um contexto valioso que as pesquisas quantitativas não capturam. A construção de um ambiente acadêmico seguro e íntegro exige um esforço coletivo e uma vigilância constante contra as formas de violência que minam o propósito fundamental da educação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune