A Amazon, empresa que se tornou sinônimo da venda de livros pela internet, estaria agora no negócio de destruí-los para alimentar sua próxima grande aposta: a inteligência artificial. Segundo uma reportagem do site 404 Media, repercutida pelo Lit Hub, a companhia pratica o chamado “escaneamento destrutivo”: compra livros em grande quantidade, digitaliza suas páginas para treinar LLMs e, no processo, destrói os exemplares físicos.

O movimento, se confirmado, não é um caso isolado, mas sintoma de uma corrida desenfreada por dados de alta qualidade no setor de tecnologia. Outras gigantes como Anthropic, Meta, Google e OpenAI já enfrentam processos judiciais de autores por práticas similares. A tese central é que o vasto corpus de texto disponível na internet é insuficiente ou de baixa qualidade, levando as empresas a buscar em livros uma fonte de dados mais pura e bem estruturada.

A caça ao texto puro

Por que livros físicos se tornaram um ativo tão cobiçado para treinar uma máquina? A resposta está na qualidade e na curadoria do conteúdo. Ao contrário da linguagem fragmentada e muitas vezes informal da internet, os livros oferecem texto editado, coeso e gramaticalmente correto. Para uma IA, isso é um material de aprendizado valioso para aprender a “escrever bem”, como teorizou um cofundador da Anthropic em documentos judiciais.

Mais importante, exemplares impressos antes de 2022 são garantidamente livres de conteúdo gerado por outras IAs. Treinar um modelo com textos que ele mesmo ou seus pares produziram pode levar a um processo degenerativo conhecido como “colapso de modelo”, onde a IA passa a repetir os próprios erros e clichês em um ciclo vicioso. Livros são, portanto, um antídoto para essa endogamia digital.

Do rastreio à guilhotina

A investigação do 404 Media adicionou uma camada de evidência prática às suspeitas. Os repórteres rastrearam um livro raro até seu destino final: um armazém da Amazon em Nevada. Lá, segundo relatos de funcionários, os livros têm suas lombadas cortadas para acelerar o escaneamento, sendo inutilizados em seguida. A imagem de uma guilhotina literal para livros em nome da eficiência algorítmica é poderosa.

Do ponto de vista legal, a questão é complexa. As empresas compram os livros, o que lhes dá a propriedade do objeto físico. Contudo, a digitalização e o uso do conteúdo para criar um produto comercial — o modelo de IA — é o que está no centro das disputas de propriedade intelectual movidas por autores e editoras. A prática testa os limites do conceito de fair use (uso justo) em uma escala industrial.

A ironia é inescapável: a empresa que revolucionou o acesso a livros pode estar agora canibalizando o formato que a originou. O episódio expõe a tensão fundamental entre o valor do livro como objeto cultural e sua nova identidade como mero insumo de dados. Enquanto os tribunais debatem a legalidade, a percepção pública sobre a destruição de livros pode se tornar um freio mais imediato a essa estratégia de força bruta na corrida pela supremacia em IA.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub