A Amazon, gigante do comércio eletrônico e dos e-readers, tomou uma decisão que gerou estranhamento no mercado: a empresa decidiu vender de volta aos seus consumidores os botões físicos de virar página que ela mesma removeu de seus dispositivos Kindle. Dois novos acessórios foram lançados: um clique Bluetooth de US$ 35 (aproximadamente R$ 190, dependendo da cotação) e uma capa de US$ 80 (cerca de R$ 430) com botões integrados para a navegação. Essa estratégia surge em um momento em que a Amazon busca inovar em seus dispositivos, mas parece ignorar as preferências de uma parcela de seus usuários mais fiéis.

O Fim dos Botões Físicos

A história dos botões físicos nos Kindles é longa. Desde o lançamento do primeiro modelo, os botões para virar página eram um elemento chave da experiência de leitura. No entanto, a Amazon iniciou um processo de remoção gradual a partir de 2011, com o Kindle Touch. A empresa argumentava que a eliminação dos botões físicos permitia um design mais limpo e moderno, com telas totalmente planas e sem bordas elevadas, semelhante aos smartphones. Em outubro de 2024, a Amazon descontinuou o último modelo que ainda possuía botões físicos dedicados, o Kindle Oasis, deixando os usuários sem opção. Para tentar suprir a ausência, a empresa introduziu em 2025 um gesto de "Tocar duas vezes para virar a página", que permite ao usuário tocar nas laterais ou na parte traseira do dispositivo para avançar. Contudo, essa funcionalidade só permite avançar, não voltar, o que limita a experiência de navegação.

A Estratégia de Venda de Botões

A introdução do clique Bluetooth de US$ 35 e da capa de US$ 80 sugere uma reavaliação por parte da Amazon. O clique, um pequeno controle remoto sem fio, funciona com todos os modelos atuais e aqueles lançados a partir de 2024. A capa, por sua vez, oferece botões de virar página integrados, mas é compatível apenas com modelos específicos, as Edições Especiais. A ideia de vender de volta uma funcionalidade que foi removida de forma deliberada levanta questões sobre a estratégia da empresa. Poderia a Amazon ter mantido os botões físicos em alguns modelos, oferecendo mais opções aos consumidores? A empresa afirma que as vendas globais de Kindle cresceram em dois dígitos por três anos consecutivos, com mais de 720 bilhões de páginas lidas em 2025. Esse volume de leitura sugere que muitos usuários poderiam ter se beneficiado de botões físicos mais acessíveis e integrados ao design.

Novas Versões e o Design Inovador

Paralelamente ao lançamento dos acessórios, a Amazon também apresentou novos modelos de Kindle. O básico, com tela de 6 polegadas e 16 GB de armazenamento, custa US$ 150 e promete até seis semanas de bateria. Uma versão em alumínio, inédita, dobra o armazenamento para 32 GB e utiliza materiais reciclados. O Kindle Paperwhite, à prova d'água, parte de US$ 200, com as Edições Signature custando US$ 250 e adicionando recursos como carregamento pogo-pin e luz com ajuste automático. O modelo Colorsoft, com tela colorida, sai por US$ 290. Todos os novos modelos apresentam um design de "construção de display em pilha reversa", que resulta em uma tela totalmente plana, sem bordas elevadas, conferindo um visual mais moderno e facilitando a limpeza. Essa inovação, contudo, não impediu a empresa de buscar monetizar a ausência de botões.

Implicações e Perguntas em Aberto

A decisão da Amazon de vender botões de virar página, após removê-los, pode ser vista como um reconhecimento tácito de que a exclusão total dessa funcionalidade não foi universalmente bem recebida. Para os consumidores, isso pode significar um custo adicional para ter uma experiência de leitura mais confortável, algo que antes era padrão. A estratégia levanta a questão de qual será o próximo "recurso perdido" que a Amazon decidirá vender de volta. Será que a empresa prioriza a estética e a inovação tecnológica em detrimento da usabilidade consolidada? O mercado de e-readers é competitivo, e a capacidade de oferecer dispositivos que atendam a diversas preferências de uso é crucial para manter a liderança. A Amazon parece estar testando os limites da sua base de usuários, apostando que a conveniência e o ecossistema de seus produtos compensarão a estranheza dessa nova oferta.

Para muitos, a necessidade de um acessório externo para uma função tão básica como virar a página de um livro digital soa como um paradoxo. A Amazon, no entanto, parece apostar que há um nicho de mercado para aqueles que sentem falta dos botões físicos e estão dispostos a pagar por eles. Resta saber se essa estratégia será sustentável a longo prazo ou se a empresa eventualmente reconsiderará o design de seus futuros modelos de Kindle.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company