A criatividade do escritório AMO, braço de pesquisa e design da OMA, encontrou um novo campo de experimentação ao lado da fornecedora holandesa de pedras SolidNature. O que começou como uma instalação efêmera durante a Semana de Design de Milão, intitulada 'Il Sonno Supermarket', transita agora para o mercado de objetos de coleção. A iniciativa coloca à venda itens cotidianos — como caixas de leite em travertino e bananas de ônix — que subvertem a lógica do consumo rápido ao serem esculpidos em materiais milenares.
Segundo reportagem da Dezeen, a demanda gerada pelos visitantes da exposição em Milão foi o catalisador para que a SolidNature decidisse produzir edições limitadas destas peças. A instalação original, concebida por Samir Bantal, diretor do AMO, buscou emular um supermercado de conveniência, porém desprovido de sua função utilitária. O projeto, que utilizou mármore, quartzo, granito e travertino, propôs uma reflexão sobre a materialidade em uma sociedade moldada pelo descarte.
A estética da conveniência congelada
A proposta de Bantal para o 'Il Sonno Supermarket' não era apenas criar peças decorativas, mas provocar um estranhamento no espectador. Ao transformar produtos de prateleira em objetos de pedra, a instalação força uma pausa na experiência de compra, que o arquiteto descreve como um reflexo automático. A escolha da pedra, um dos materiais mais antigos da Terra, contrasta com a natureza efêmera e descartável dos produtos que habitualmente compõem um supermercado.
O ambiente da exposição, cercado por painéis de policarbonato e iluminado por luzes fluorescentes, buscava criar uma atmosfera onírica. Com o título traduzido como 'sono', a instalação utilizou espelhos para ampliar a percepção de um tempo fluido, onde a mercadoria deixa de ser um item de consumo para se tornar um objeto de contemplação. A transição para a venda comercial dessas peças mantém essa aura de exclusividade, reforçando o valor artístico sobre o valor de uso.
A materialidade como diferencial de mercado
A colaboração destaca a versatilidade da SolidNature, empresa que tem se posicionado como uma parceira estratégica para o design de alto padrão. O uso de materiais naturais garante que cada peça produzida seja única, apresentando variações intrínsecas em padrões, tons e translucidez. Esse aspecto artesanal eleva o produto final, tornando-o atraente para colecionadores e entusiastas de design que buscam objetos com peso simbólico e durabilidade física.
Para a SolidNature, que já realizou projetos de grande impacto com designers como Sabine Marcelis, a incursão no mercado de objetos de design de pequena escala é uma extensão natural de sua expertise em arquitetura. O sucesso da exposição em Milão demonstra que há um público disposto a investir em peças que desafiam as convenções do cotidiano, transformando o ordinário em extraordinário através da escolha do material e da execução técnica precisa.
Tensões entre arte e consumo
O movimento levanta questões sobre o papel do design na contemporaneidade, especialmente quando objetos de consumo são ressignificados como arte. A tensão entre a funcionalidade esperada de um item de mercearia e a imobilidade da pedra cria uma experiência estética que ressoa com as tendências atuais do mercado de luxo. A valorização de objetos que possuem uma narrativa por trás de sua criação, como é o caso das peças da AMO, tornou-se um diferencial competitivo importante.
Além disso, a parceria reflete a crescente demanda por produtos que integrem design, arquitetura e curadoria de materiais. Para os stakeholders envolvidos, o sucesso dessa transição do showroom para o catálogo de vendas aponta para um modelo de negócio onde a exposição artística serve como um laboratório de validação para produtos de nicho, atraindo não apenas consumidores finais, mas também arquitetos e especificadores interessados em novas formas de expressão material.
Perspectivas para o design de objetos
O futuro dessas peças no mercado de design de interiores permanece como uma incógnita interessante. Resta saber se o interesse por esses objetos de 'mercearia de pedra' se consolidará como uma tendência duradoura ou se permanecerá restrito ao nicho de colecionadores. A capacidade da SolidNature em escalar a produção dessas edições limitadas sem comprometer a qualidade artesanal será um fator determinante para a continuidade do projeto.
Os próximos passos da colaboração entre AMO e SolidNature poderão oferecer pistas sobre como o design de objetos pode continuar a dialogar com a arquitetura de grande escala. Observar a recepção destas peças no mercado global permitirá entender se a intersecção entre o efêmero e o eterno, proposta pela instalação, consegue sustentar o interesse do público a longo prazo, transformando a rotina de consumo em uma experiência estética permanente.
A proposta de congelar o cotidiano em pedra convida a uma reflexão sobre o que valorizamos no mundo material. Ao remover a função de uso, a AMO e a SolidNature não apenas criam objetos, mas propõem uma nova forma de olhar para a prateleira do supermercado, transformando o hábito em um exercício de percepção sobre a forma, a intenção e a durabilidade dos objetos que nos cercam.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





