A Amundi, uma das maiores gestoras de ativos da Europa, sinalizou uma mudança estratégica importante para o segundo semestre de 2026. Em suas perspectivas globais, a instituição defende que os investidores reduzam a dependência de ativos concentrados em tecnologia e busquem diversificação em setores variados e em geografias emergentes. A leitura central é que o capital global deve passar por uma rotação, movendo-se para além dos ativos denominados em dólares, impulsionado por novas dinâmicas de crescimento estrutural.

Segundo reportagem da Forbes España, a gestora identificou que as oportunidades em inteligência artificial deixaram de ser exclusivas das gigantes de software e hardware, espalhando-se agora por toda a cadeia de valor, incluindo infraestrutura, energia e robótica. Essa transição reflete uma busca por resiliência em um cenário macroeconômico que a Amundi descreve como uma "frágil desescalada".

A nova fronteira da inteligência artificial

A tese da Amundi sugere que o entusiasmo inicial com a IA está sendo substituído por uma visão mais pragmática sobre quem realmente capturará valor no longo prazo. Em vez de focar apenas no desenvolvimento de modelos, a gestora aponta para o setor de infraestrutura e energia como beneficiários diretos do aumento da demanda computacional. Para a Europa, a expectativa é de uma recuperação sustentada no gasto de capital, impulsionada pela necessidade de autonomia estratégica em áreas críticas, como defesa e infraestrutura energética.

Vale notar que essa visão não é apenas setorial, mas também geográfica. A Europa, historicamente vista como um mercado de crescimento mais lento, ganha destaque na estratégia da gestora como um destino para investidores que buscam alternativas aos ativos americanos. A aposta é que, à medida que a dependência do dólar diminui, mercados regionais com balanços sólidos ganhem atratividade.

Dinâmicas em mercados emergentes

No que diz respeito aos mercados emergentes, a Amundi mantém um otimismo seletivo. A gestora favorece países exportadores de commodities e nações com forte viés tecnológico na Ásia. A Índia, em particular, é citada como um caso de crescimento estrutural intacto, mesmo diante de riscos externos como a volatilidade dos preços do petróleo, que a firma estima oscilando entre 80 e 90 dólares por barril até o final do ano.

Essa preferência por emergentes também se estende à classe de ativos de dívida. A estratégia de alocação sugere que a rotatividade de capital será o motor que impulsionará esses mercados, contanto que os bancos centrais locais consigam ancorar as expectativas de inflação. A gestora espera uma postura de cautela dos bancos centrais globais, com a Reserva Federal mantendo taxas inalteradas, enquanto outros grandes bancos centrais, como o BCE, podem realizar ajustes pontuais.

Implicações para o investidor global

A mudança na estratégia de alocação da Amundi reflete uma preocupação crescente com a concentração de risco nos portfólios atuais. Para investidores, a implicação é clara: o modelo de "comprar tudo que é tech" pode estar perdendo eficácia. A gestora recomenda um retorno ao básico, focando em empresas com balanços sólidos e qualidade de crédito, especialmente dentro do segmento 'investment grade'.

Para o mercado brasileiro, que frequentemente oscila conforme o apetite ao risco global e a força do dólar, as recomendações da Amundi trazem um alerta importante. Se a tendência de depreciação do dólar se confirmar, o fluxo de capitais pode favorecer moedas vinculadas a commodities, o que historicamente beneficia economias emergentes com perfil exportador, desde que a estabilidade política e fiscal seja mantida.

O cenário de incertezas

O cenário central da Amundi, contudo, não é isento de riscos. A fragilidade geopolítica, exemplificada pela situação no Estreito de Ormuz, permanece como uma incógnita que pode pressionar os custos de energia e, consequentemente, a inflação global. A gestora admite que revisou para baixo a maioria de suas previsões de crescimento, reconhecendo que o cenário de desescalada é, por natureza, instável.

O que resta observar é a capacidade dos mercados de absorver essa transição sem choques abruptos na liquidez. A transição de uma economia movida por excesso de capital para uma focada em eficiência produtiva e infraestrutura será o teste definitivo para os gestores de portfólio nos próximos trimestres. A volatilidade, ao que parece, continuará sendo o padrão, exigindo uma gestão de ativos muito mais ativa do que a vista nos últimos anos.

O movimento da Amundi sinaliza que a era da alocação passiva em tecnologia pode estar atingindo um limite, forçando investidores a olhar para ativos negligenciados. Resta saber se o mercado global terá o apetite necessário para essa migração geográfica e setorial, ou se a inércia dos grandes fluxos de capital continuará a ditar a narrativa de investimentos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España