O governo da Andaluzia, uma das mais importantes potências agrícolas e pesqueiras da Europa, elevou a pressão sobre Madri e Bruxelas com um apelo direto: a União Europeia "não pode deixar morrer a agricultura e a pesca" da região. A mensagem foi entregue por Ramón Fernández-Pacheco, conselheiro de Agricultura do governo andaluz, antes de uma reunião com o ministro da Agricultura espanhol, em um movimento que articula as demandas do setor produtivo local.
O que parece um pleito regional é, na verdade, um sintoma da tensão estrutural que percorre o bloco europeu. De um lado, as ambiciosas metas ambientais e a centralização de políticas em Bruxelas. Do outro, a realidade econômica e social de setores primários que se sentem sob ameaça. A Andaluzia, com sua escala e peso político, serve como um termômetro para um descontentamento mais amplo no campo europeu.
O peso da PAC e a batalha pela governança
O cerne da disputa está na gestão da Política Agrícola Comum (PAC), o bilionário programa de subsídios da UE. A Andaluzia concentra um terço dos beneficiários da PAC em toda a Espanha, o que lhe confere uma posição de destaque na negociação. A região defende um orçamento "sólido e blindado", mas a principal demanda é por governança. O governo local quer mais autonomia para desenhar e gerir as medidas ambientais e climáticas, argumentando que uma abordagem centralizada ignora as "singularidades de todos os territórios".
Essa reivindicação por maior regionalização é um contraponto direto ao modelo de implementação da PAC, que, na visão andaluza, se tornou excessivamente burocrático e distante da realidade dos produtores. A defesa da manutenção do atual modelo de 20 "regiões produtivas" e a gestão autônoma de programas, como as ajudas agroambientais, são vistas como cruciais para a sobrevivência de mais de 210 mil beneficiários apenas na Andaluzia.
Do campo ao mar: a sustentabilidade em três dimensões
A mesma lógica se aplica ao setor pesqueiro. A Andaluzia pede uma reforma profunda da Política Pesqueira Comum (PPC), criticando o foco excessivo em indicadores biológicos em detrimento das consequências econômicas e sociais. A tese é que a sustentabilidade ambiental precisa caminhar ao lado da sustentabilidade econômica e social. Novas reduções automáticas do esforço de pesca, especialmente no Mediterrâneo, são rechaçadas por comprometerem a viabilidade da frota.
Outro ponto central é a exigência de isonomia competitiva. Os produtores andaluzes pedem que os produtos importados de países terceiros sejam submetidos às mesmas exigências ambientais, trabalhistas e sanitárias impostas ao setor europeu. É uma crítica velada aos acordos comerciais da UE que, segundo eles, criam uma concorrência desleal, sobrecarregando os produtores locais com regulações que não se aplicam aos seus concorrentes externos.
As demandas da Andaluzia não são um caso isolado, mas um reflexo das contradições do projeto europeu. O embate entre a agenda verde do bloco e a viabilidade econômica de seus setores tradicionais está no centro do debate político. A forma como Bruxelas e os estados-membros responderão a essa pressão determinará não apenas o futuro do campo espanhol, mas o equilíbrio de forças dentro da própria União.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





