A exposição La Ragnatela, da artista Andrea Bowers, em cartaz na Fondazione Sandretto Re Rebaudengo, em Turim, Itália, lança um olhar sobre o ativismo climático e feminista de décadas passadas, com relevância direta para os debates atuais. A mostra, concebida como uma mini‑retrospectiva do engajamento de Bowers, foca o movimento feminista antinuclear italiano e o acampamento La Ragnatela — a “teia de aranha”, em italiano — fundado em 1983 em Comiso, na Sicília, para protestar contra a instalação de mísseis nucleares norte‑americanos em uma base da OTAN. Curada por Bernardo Follini, a exposição busca resgatar a memória de um movimento em grande parte esquecido, reunindo documentos e recortes de época, com contribuições de mulheres hoje entre 80 e 90 anos. “A parte de engajamento social da minha prática é a menos conhecida ou documentada porque o mundo da arte foca mais em objetos, mas é do que mais me orgulho”, disse Bowers em prévia da mostra.

O legado de La Ragnatela

A exibição se abre com Defense of Necessity (2003), trabalho que remete ao artesanato feminino e figura entre as primeiras obras em que Bowers se afirma como artista política. O motivo da teia de aranha remete à Women’s Pentagon Action, movimento ecofeminista e antinuclear dos EUA que dialogava com La Ragnatela, na Itália, e com o Greenham Common Women’s Peace Camp, na Inglaterra. A peça é apresentada como uma cerca — elemento que, segundo a artista, provoca o debate sobre os limites da não‑violência. “Ativistas envolvidos na não‑violência sempre se perguntam: se cortarmos essa cerca, isso se torna violência? Ou é uma ofensa de necessidade, um argumento em que pequenas injustiças, ou a quebra de pequenas leis, são usadas para proteger o mundo de injustiças maiores”, explica Bowers. Essa tensão entre ação direta e justificativa moral permeia a exposição.

Slogans e símbolos de resistência

Quatro vitrines reconstituem momentos do movimento La Ragnatela, com linha do tempo e correspondências entre as mulheres de Comiso e aliadas na Inglaterra. Fotografias de presas em protestos e a carta de uma detida — que vestia uma camiseta com a inscrição “question authority” durante o julgamento — também estão presentes. A frase inspirou Bowers a criar uma obra recente em neon em forma de teia, com o slogan destacado. Outras instalações luminosas trazem mensagens como “Um final melhor para o mundo é possível”, “Devolvam nosso futuro” e “Para estar livre do medo”. A mostra inclui ainda fitas coloridas com lemas políticos — entre eles, “Pessoas acima de lucros”, “Mulheres fora da lei são a única esperança para a sobrevivência da Terra” e “Alargue a teia para quebrar a corrente nuclear”. Os visitantes são encorajados a levar as fitas, gesto simples que, para Bowers, ajuda a “tomar uma posição”.

Diálogo com o presente

O trabalho de Bowers conecta o ativismo dos anos 80 aos dilemas de hoje. O recente freio do governo italiano a projetos solares em terras agrícolas, justificado por preocupações com “soberania alimentar”, ecoa tensões históricas entre desenvolvimento e preservação que mobilizaram La Ragnatela. Desenhos hiper‑realistas em grafite sobre papel, como os de 2003 que recriam fotos de grupos antinucleares — incluindo a obra Diabloblockade, Diablo Nuclear Power Plant, Abalone Alliance —, revisitam ações de organizações como a Mothers for Peace, na Califórnia. Em paralelo, peças em neon e outros meios revelam a habilidade de Bowers em transitar entre suportes sem perder o foco nas estruturas de poder.

Questões em aberto

Embora La Ragnatela celebre um ativismo esquecido e convide à reflexão, a própria artista sugere que o espaço poderia ter sido maior para abarcar duas décadas de paixão ambiental. Uma peça em neon que reproduz o esboço de um pôster histórico — com a imagem de uma mulher chutando um míssil — adiciona humor e melancolia ao protesto. Ao revisitar lutas passadas, a exposição nos instiga a perguntar o que ainda precisa ser dito e feito para garantir um futuro sustentável e justo. A teia, símbolo de interconexão e resistência, permanece como chamado à ação coletiva.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews