O COO da Uber, Andrew Macdonald, tornou-se o mais novo porta-voz de um ceticismo crescente no setor de tecnologia. Em entrevista recente, o executivo afirmou não observar melhorias diretas na produtividade da empresa decorrentes do aumento no uso de tokens de inteligência artificial. A declaração, que acumulou milhões de visualizações, expõe uma ferida aberta no Vale do Silício: a dificuldade em traduzir o consumo desenfreado de recursos computacionais em resultados mensuráveis para o consumidor final.
O fenômeno, apelidado de "tokenmaxxing", descreve a prática de queimar o maior volume possível de tokens de IA, muitas vezes como uma forma de ostentação corporativa ou tentativa forçada de inovação. Segundo relatos da indústria, a pressão por adotar tecnologias generativas levou empresas a esgotarem orçamentos anuais em poucos meses, sem que houvesse uma correlação clara com a entrega de novas funcionalidades ou eficiência operacional.
A falácia da produtividade em escala
A tese central do debate é que o volume de processamento não equivale, necessariamente, a valor agregado. Enquanto corporações como Visa e Meta incentivam o uso intensivo de IA entre seus times, gestores de tecnologia começam a questionar a eficácia dessa estratégia. A percepção é de que uma parcela significativa do gasto com tokens é, no momento, inútil, dada a falta de critérios rigorosos para medir o retorno sobre o investimento (ROI).
O problema ganha contornos estruturais à medida que CEOs de gigantes como o Google, na figura de Sundar Pichai, admitem preocupação com o ritmo de gastos das empresas. A expectativa é que o cenário se agrave ao longo do ano, à medida que os orçamentos de tecnologia são submetidos a auditorias mais rigorosas. O "tokenmaxxing" começa a ser visto menos como uma estratégia de vanguarda e mais como um excesso temporário de um ciclo de euforia tecnológica.
Mecanismos de desperdício e controle
O mecanismo por trás do desperdício reside na ausência de métricas de performance atreladas ao custo. Empresas que recompensam o uso de IA sem exigir entregas específicas acabam criando incentivos perversos. Estudos de inteligência de engenharia, como o da Jellyfish, demonstram que o consumo extremo de tokens não garante uma produção proporcional de código, sugerindo que o uso desenfreado pode ser um indicador de ineficiência operacional.
A recomendação atual de analistas é que as empresas parem de premiar o consumo bruto de tokens e passem a monitorar indicadores concretos, como pull requests ou a qualidade das entregas. A transição de um modelo de "quem usa mais IA" para "quem gera mais valor com IA" é o próximo passo necessário para a maturidade do setor.
Tensões no mercado e o risco da bolha
As implicações desse ajuste de rota são profundas para o ecossistema de venture capital e para o mercado de ações. Investidores proeminentes, como Michael Burry, já classificam o movimento atual como uma fase passageira e arriscada, alertando para potenciais quedas em ativos de empresas de chips, como a Nvidia. A pressão por resultados financeiros tangíveis deve forçar uma reavaliação dos modelos de negócio baseados apenas em promessas de IA.
No Brasil, onde o uso corporativo de IA cresce rapidamente, o debate serve como alerta para a necessidade de governança financeira. Empresas nacionais que replicam modelos de adoção acelerada sem métricas de ROI correm o risco de repetir os erros de desperdício observados nos Estados Unidos, comprometendo orçamentos que poderiam ser alocados em projetos de maior impacto estratégico.
O futuro do investimento em IA
O que permanece incerto é se a correção de curso será suave ou se haverá uma retração severa nos investimentos em IA generativa. A questão central não é a utilidade da tecnologia, mas a sustentabilidade financeira do seu uso desenfreado.
O mercado observará atentamente os próximos balanços corporativos em busca de sinais de eficiência. A transição de um modelo de gasto desenfreado para uma operação focada em métricas de valor definirá quais empresas sairão fortalecidas desta fase de ajuste.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





