A forma como as empresas operam no dia a dia tem um impacto direto e profundo na estrutura social, moldando a linha tênue entre a criação de uma classe média robusta e a perpetuação do precariado. Essa é a tese central defendida por Ángel Bonet, presidente e fundador da ImpactCo, em uma análise que transcende os meros indicadores financeiros. Bonet aponta que, enquanto a economia celebra o crescimento em cifras e lucros, realidades como a precariedade laboral e a desafeção dos trabalhadores muitas vezes ficam à margem dos balanços, mesmo quando são consequências diretas das decisões empresariais.
Bonet, em entrevista à Forbes Espanha, discute o relatório "El coste invisible", que estima em 44,5 bilhões de euros anuais o valor econômico que a Espanha deixa de criar por não integrar o propósito empresarial na gestão das companhias. A mensagem é clara: empresas não são meras espectadoras do progresso social, mas agentes ativos em sua construção ou em suas deficiências. A questão fundamental não é se as empresas devem gerar lucro – isso é indiscutível –, mas sim quais são os limites éticos e estratégicos nesse processo. A escolha entre um emprego que garante dignidade e um que apenas sobrevive, entre um futuro promissor e a incerteza, está nas mãos de quem decide onde investir, a quem contratar e como distribuir os ganhos.
O Custo da Ausência de Propósito
O relatório "El coste invisible" sugere que a integração de um propósito empresarial genuíno, que vá além da busca por benefícios econômicos, poderia gerar quase 45 bilhões de euros adicionais anualmente na Espanha. Esse valor não viria de subsídios ou reformas fiscais, mas sim da própria dinâmica de mercado. A produtividade tende a aumentar quando os funcionários se sentem engajados e conectados a uma missão maior, combatendo a desafeção que hoje representa um valor perdido. Além disso, o mercado premia cada vez mais as empresas que demonstram um "porquê" crível, atraindo consumidores e talentos que buscam alinhar seus valores com as organizações com as quais interagem. Por outro lado, empresas que se limitam a declarações de propósito sem integrá-lo em sua gestão e operações correm o risco de serem penalizadas pela perda de relevância e competitividade.
Para que essa estimativa se materialize, o propósito precisa deixar de ser uma ferramenta de comunicação para se tornar um pilar da gestão estratégica. Isso implica que ele deve influenciar decisões cruciais: onde investir capital, quais fornecedores priorizar, como organizar o trabalho e, fundamentalmente, como os lucros são distribuídos. Bonet compara o rigor com que as empresas medem seu EBITDA (Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) ao compromisso com seus colaboradores, sugerindo que tratar a dedicação da equipe com a mesma seriedade começaria a reverter o cenário financeiro e a impactar negativamente concorrentes que ignoram essa dimensão.
Barreiras à Adoção e a Evidência Econômica
A aparente contradição entre os benefícios potenciais de um propósito empresarial e a relutância de muitas companhias em adotá-lo de forma efetiva se explica por duas razões principais, segundo Bonet. A primeira é o cortoplacismo inerente à medição de resultados por trimestre, enquanto os frutos de um propósito genuíno se manifestam no médio e longo prazo. A segunda, e talvez mais desconfortável, é que um propósito autêntico exige sacrifícios: a renúncia a um fornecedor eficiente, mas pouco ético; a reestruturação de incentivos que priorizam o lucro imediato; ou a aceitação de que o resultado financeiro deste ano pode ser menor em prol de um ganho futuro maior e mais sustentável. Tornar públicas frases inspiradoras na página web da empresa é infinitamente mais fácil e barato do que promover uma transformação organizacional profunda.
Um terceiro fator, crucial para convencer a alta administração, é a necessidade de evidências econômicas concretas. Conselhos de administração, argumenta Bonet, respondem a números, não apenas a boas intenções. O relatório "El coste invisible", embora reconheça a ausência de uma causalidade científica estritamente comprovada, baseia-se em vinte anos de experiência prática e rigor acadêmico para demonstrar a correlação entre propósito e resultados. A experiência de campo, segundo Bonet, mostra consistentemente que empresas com propósito atraem e retêm talentos, reduzem o absenteísmo, melhoram a satisfação do cliente e, consequentemente, a sua performance financeira. O estudo buscou quantificar essa observação com estimativas conservadoras, apresentando uma direção sólida para a tomada de decisão.
Implicações para a Classe Trabalhadora e a Sociedade
A discussão sobre propósito empresarial ganha ainda mais relevância no contexto de economias como a espanhola, que, apesar de anos de crescimento, ainda enfrenta altos níveis de desigualdade e pobreza infantil. Bonet é enfático ao afirmar que o setor privado tem um papel central e, muitas vezes, subestimado na perpetuação ou mitigação desses desequilíbrios. A criação de empregos de qualidade – estáveis, com salários dignos e perspectivas de futuro – é descrita como o motor mais potente de ascensão social, superando muitos programas de subsídio público. As empresas, ao decidirem entre criar classe média ou precariado, exercem um poder imenso que pode ser usado para combater a vulnerabilidade na raiz, através do trabalho digno.
O declínio na implicação dos trabalhadores espanhóis, que caiu de 18% para 10% em uma década, é apontado como um sintoma de falha na liderança empresarial. Em dez anos, as exigências sobre os funcionários aumentaram – mais eficiência, disponibilidade e adaptação –, enquanto o sentido do trabalho oferecido diminuiu. A pandemia e uma nova geração de trabalhadores trouxeram à tona a pergunta "Para quê trabalho eu?", para a qual muitas empresas não têm resposta. Embora mudanças sociais mais amplas contribuam para essa desafeção, a responsabilidade da liderança em cultivar o engajamento de suas equipes é inegável. A boa notícia, segundo Bonet, é que se a queda na implicação é, em grande parte, responsabilidade das empresas, revertê-la também está em suas mãos.
O Futuro da Gestão Empresarial e a Vantagem Competitiva
Sacrificar rentabilidade de curto prazo em prol de compromissos sociais e ambientais pode parecer um paradoxo, mas é a essência de um propósito autêntico. Empresas que não estão dispostas a qualquer sacrifício genuíno não possuem propósito, apenas marketing. No entanto, a integração de critérios ESG (Ambiental, Social e Governança) não destrói valor; pelo contrário, gera um valor muito maior no médio e longo prazo. Isso se traduz em menor rotatividade de pessoal, maior capacidade de atrair e reter talentos, maior resiliência em crises, acesso a capital que hoje exige impacto, preferência do consumidor e licença social para operar. O que parece um sacrifício trimestral é, na verdade, um investimento com um dos melhores retornos, ainda que diferido.
Distinguir um compromisso autêntico de uma mera declaração de intenções requer olhar para onde "dói": o orçamento, os incentivos e as decisões difíceis. Perguntas cruciais incluem: o propósito condiciona a alocação de capital e a remuneração variável de executivos? Existem consequências reais para o descumprimento de compromissos? O engajamento dos funcionários é medido com o mesmo rigor das vendas e chega ao conselho? A empresa já recusou dinheiro por incoerência com seu propósito? A certificação por terceiros, como a B Corp, que exige auditorias independentes de impacto social e ambiental, é um indicador forte de que a empresa está disposta a ser medida, não apenas a ser acreditada. A linha entre medir e proclamar é o divisor de águas.
Para que essa transformação se generalize no modelo empresarial espanhol, são necessárias três mudanças e uma convicção. Primeiro, medir o que importa: incorporar o compromisso e o impacto aos quadros de comando com o mesmo rigor do lucro. Segundo, alargar o horizonte temporal, com governança e incentivos que premiem a criação de valor sustentado. Terceiro, promover a evidência e a formação, transformando o propósito em uma disciplina ensinável. A convicção de fundo é que a Espanha possui o tecido empresarial, o talento e os dados para liderar essa mudança na Europa. "Progredir ganhando dinheiro e fazendo o bem comum" pode ser, de fato, a verdadeira vantagem competitiva do país.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





