A cena ocorreu em 1986, durante uma conversa por telefone entre a escritora britânica Angela Carter e a entrevistadora Rosemary Carroll para a revista BOMB. O clima era de camaradagem intelectual até que o nome de Joan Didion surgiu como um contraponto negativo à suposta falta de compaixão e generosidade que Carroll notava em muitas escritoras contemporâneas. A reação de Carter não foi de diplomacia, mas de um desdém cáustico e quase performático, que ainda hoje ressoa como um dos momentos mais memoráveis de rivalidade literária. Ao ouvir o nome de Didion, Carter disparou um "Yah, boo, sucks" – uma expressão infantil de escárnio – antes de desconstruir a persona e os personagens da autora americana com uma virulência que misturava sátira política e desdém estético.

Para Carter, a obra de Didion não era apenas desprovida de humanidade; era, em sua visão, algo alienígena. A escritora britânica, conhecida por sua prosa barroca e subversiva, imaginou um destino peculiar para as protagonistas "anoréxicas" de Didion: o sequestro por uma gangue de Hells Angels, seguido de trabalho forçado em poços de graxa ou reeducação em plantações de café na Nicarágua. O comentário, embora tingido de humor negro, revelava um abismo ideológico. Carter via nas personagens de Didion uma forma de autocomplacência que ela, como feminista convicta, considerava ofensiva. Ela não estava apenas atacando um estilo literário; estava questionando a validade de uma sensibilidade que encontrava tragédia no esgotamento do Valium enquanto o mundo, fora da bolha, enfrentava tensões geopolíticas reais.

A estética da compaixão em disputa

A crítica de Carter a Didion não era um evento isolado, mas o reflexo de uma tensão maior na literatura do século XX sobre como as mulheres deveriam retratar a si mesmas. Enquanto Didion construiu sua carreira sobre a observação clínica, o distanciamento e a elegância do vazio — o que muitos chamam de "estilo de tote saint" —, Carter buscava na literatura uma força vital, quase mitológica. Para a autora britânica, a escrita era um ato de intervenção, não de observação passiva. Ela buscava personagens que, mesmo em meio à opressão, mantivessem uma faísca de agência ou, no mínimo, de resistência física contra o determinismo melancólico que ela atribuía às heroínas de Didion.

O debate levantado naquela entrevista toca na ferida do papel social da escritora. Carter argumentava que havia uma falta de generosidade na forma como as autoras americanas daquele período tratavam suas pares femininas, transformando a fragilidade em um acessório estético. Ao rejeitar o minimalismo de Didion, Carter não estava apenas defendendo seu próprio estilo, mas exigindo uma literatura mais robusta, que não se contentasse com a languidez existencial. Ela buscava o que chamava de "real love" (amor real) e proteção entre mulheres, algo que ela raramente encontrava nas páginas daquelas que, na época, dominavam as listas de mais vendidos.

O abismo entre continentes e visões

É fascinante observar como a percepção de Carter sobre Didion era filtrada por sua própria experiência europeia. Enquanto Didion era o produto de uma elite intelectual americana marcada pela desilusão pós-anos 60, Carter operava a partir de uma tradição que valorizava o conto de fadas, o grotesco e a desconstrução dos arquétipos patriarcais. Para Carter, a "alienígena" Didion representava um tipo de nihilismo americano que ela considerava perigosamente estéril. A sugestão de que as personagens de Didion precisavam de uma dose de realidade brutal — como o trabalho forçado — era uma metáfora para a necessidade de tirar essas figuras de um estado de inércia psicológica.

Essa divergência também se estendeu a Doris Lessing, que Carter também criticou, embora por motivos diferentes. Se Didion pecava pelo excesso de foco no eu, Lessing, na visão de Carter, pecava pelo pessimismo generalizado sobre a humanidade. A busca de Carter por uma "escritora real" encontrou eco apenas em Jane Bowles, a quem ela descreveu como "maravilhosa e extraordinária". Bowles, com sua vida marcada por tragédias e uma prosa que desafiava categorias, parecia oferecer a Carter o que ela não encontrava nas contemporâneas mais celebradas: uma autenticidade que não era nem cínica, nem complacente, mas profundamente humana em sua dor.

A política por trás do estilo

O confronto entre essas vozes literárias não é apenas uma curiosidade histórica, mas uma lição sobre como a política molda a estética. A agressividade de Carter ao falar de Didion era, em última análise, um manifesto contra a passividade. Ela via a literatura como um campo de batalha onde o gênero e a classe social se entrelaçam. Ao sugerir que as personagens de Didion deveriam ser enviadas para campos de reeducação, Carter estava, de forma satírica, tentando politizar figuras que, em sua visão, viviam em um vácuo de privilégio e tédio.

Para o leitor contemporâneo, esse embate levanta questões sobre a longevidade da crítica literária. O que acontece quando o tempo nivela as reputações? Hoje, tanto Carter quanto Didion são pilares incontestáveis da literatura, lidas e estudadas com reverência. No entanto, o momento de fúria de Carter nos lembra que, em seu tempo, a literatura não era um consenso de bibliotecas silenciosas, mas um espaço de disputa intensa, onde o estilo de uma autora era frequentemente lido como uma declaração política sobre a própria existência.

O legado da discordância

O que permanece incerto, décadas depois, é se a crítica de Carter foi um erro de julgamento ou uma percepção aguçada sobre os limites da prosa de Didion. Será que a "frieza" de Didion, que Carter tanto detestava, é justamente o que garante a atemporalidade de sua obra? Ou será que a vitalidade e o caos que Carter defendia são a verdadeira essência da literatura que sobrevive ao tempo?

Observar essas duas gigantes se estranhando à distância nos convida a questionar nossas próprias preferências. Como leitores, tendemos a buscar nas obras uma extensão de nossa própria visão de mundo. Carter e Didion, cada uma à sua maneira, construíram mundos tão distintos que a colisão entre eles era inevitável. Talvez a literatura precise desse atrito para continuar viva.

No fim, as palavras de Angela Carter permanecem como um lembrete de que o respeito literário não é obrigatório e que, por vezes, a discordância mais visceral é a que melhor define o caráter de uma escritora. Entre o sarcasmo de uma e a elegância gelada da outra, o leitor encontra o espaço necessário para decidir qual voz reflete melhor a sua própria realidade, ou se, talvez, o mundo precise de ambas para ser compreendido em sua complexidade.

Com reportagem de Lit Hub

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