A Ânima Educação está fechando um ciclo. A companhia anunciou a recompra do Centro Universitário FMU por R$ 410 milhões, quatro anos depois de ter vendido o mesmo ativo por R$ 500 milhões para o fundo Camp Nou, gerido pela Farallon Capital. A transação adiciona 51 mil alunos à base da Ânima e aumenta sua receita em 11%.

Mais do que um simples arbitragem de preço, o movimento é uma aposta calculada na recuperação de um ativo que enfrentou dificuldades, mas que agora, com passivos reestruturados, oferece um novo valor estratégico. A leitura é que a Ânima está adquirindo não apenas uma marca tradicional em São Paulo, mas uma peça-chave para navegar as transformações regulatórias do ensino superior, especialmente no segmento de ensino a distância (EAD).

De desinvestimento a aposta

A venda da FMU em 2020 não foi uma decisão de portfólio, mas uma necessidade tática. Na época, a Ânima precisava acelerar a aprovação da compra dos ativos da Laureate no Brasil pelo CADE, e o desinvestimento da FMU — que fazia parte do pacote — foi a solução encontrada. Sob a gestão da Farallon, no entanto, a instituição perdeu fôlego. Segundo reportagem do Brazil Journal, seu market share no ensino presencial em São Paulo caiu de 9% para 6%, culminando em um processo de recuperação judicial homologado no início deste ano.

Com os passivos equacionados, a Ânima enxerga uma oportunidade de turnaround. A tese é que, ao reintegrar a FMU ao seu ecossistema, é possível dobrar a margem operacional do ativo, hoje em cerca de 20%, para alinhá-la à média de 42% do grupo. A escala, o compartilhamento de estruturas e a gestão focada no acadêmico — e não apenas na “bilheteria”, como definiu o CFO da Ânima, Átila Simões — são os pilares para essa recuperação.

Sinergia e o novo xadrez do EAD

A principal justificativa estratégica, contudo, reside nas novas regras para o ensino a distância. O marco regulatório aprovado em 2023 exige que cursos como saúde e engenharia migrem do modelo 100% online para o semipresencial. Para a CEO da Ânima, Paula Harraca, essa mudança estrutural torna o timing da aquisição crucial.

A FMU traz consigo uma expertise consolidada em EAD e semipresencial, além de uma infraestrutura física robusta, com seis campi em São Paulo, pronta para absorver a demanda dessa migração. A Ânima aposta que essa capacidade instalada e o know-how da FMU serão um diferencial competitivo para sair na frente dos concorrentes na adaptação ao novo cenário.

A aquisição eleva a alavancagem da Ânima de 2,39x para 2,73x o EBITDA, um risco calculado que a companhia espera mitigar com a geração de caixa do ativo recuperado. O mercado, por sua vez, observa com cautela, mas a jogada posiciona a Ânima de forma mais robusta para o futuro do setor. A questão, agora, é se a execução da sinergia entregará o valor que a estratégia promete.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech