Em um trecho do livro "Roadshow", de Nikki Ervice, a personagem Annie mergulha em uma jornada de autodescoberta e sobrevivência em um clube de strip-tease. A narrativa, destacada pelo Lit Hub, não se atém a julgamentos morais, mas explora as complexidades da condição humana quando confrontada com a necessidade e o desejo. Em um momento de crise, com o dinheiro 'a caminho' e assombrada por um relacionamento passado simbolizado pela imagem de "Vera e Tom Selleck", Annie se vê impelida a consertar algo dentro de si. Após comprar uma garrafa de uísque e uma camiseta irônica em um brechó, ela aterrissa no "Girls, Girls, Girls", um universo onde a arte performática se confunde com a busca por um sentido.

A Chegada e a Cumplicidade

A entrada de Annie no clube é uma imersão forçada em um mundo de aparências e rituais, orquestrada por um gerente insistente. As outras dançarinas, as "Girls, Girls, Girls", a recebem com uma apatia que denuncia o desdém pelo chefe, mas também um senso de camaradagem tácita. Inicialmente uma estranha, Annie logo se vê imersa na dinâmica do camarim, entre mulheres que, como ela, parecem carregar seus próprios fardos sob camadas de maquiagem. Embora as regras da casa proíbam o uísque que ela carrega, a cumplicidade feminina prevalece quando as dançarinas apelidadas de "Curly-hair" e "Star" quebram as barreiras com um gole compartilhado. A resposta evasiva de Annie sobre sua origem — "down from Edmonton" — sinaliza uma fuga, uma busca por recomeço ou, no mínimo, uma trégua de sua realidade.

O Palco como Templo e Armadura

Para essas mulheres, o palco transcende a mera exibição; é um espaço sagrado onde a vulnerabilidade se transforma em força. Ao adotar o nome artístico "DOG GIRL", rabiscado na escala de apresentações, Annie sente a adrenalina e o uísque criarem uma sensação de pertencimento e segurança. A persona é mais do que um disfarce: é uma armadura que a protege e, simultaneamente, a permite se entregar ao momento. A observação das outras dançarinas — suas roupas de strass, a precisão dos movimentos, a graça ao aceitar dinheiro — revela um mundo de profissionalismo e arte. Star, uma estudante de veterinária de 22 anos, personifica a dualidade dessas vidas: a busca por um futuro estável através da educação, financiada por um presente precário. A solidariedade do grupo se manifesta em uma 'omertà' coletiva quando o gerente desconfiado procura por uma certa "Penny", mostrando a união delas contra a vigilância constante.

A Mecânica do Desejo

A dinâmica do clube é regida por uma complexa mecânica do desejo, onde o público é o motor. Ao se despir e dançar, Annie sente a potência dessa energia. Um momento de conexão efêmera ocorre quando um homem de boné baixo e olhos marejados lhe entrega dinheiro canadense. A performance se intensifica, e Annie se sente quase uma figura sobrenatural no palco. A narrativa compara a interação a um cassino, onde acaso e planejamento se misturam, e a admiração do público, mesmo que velada ou sarcástica ("Some bitch", diz um homem), é um reconhecimento de sua entrega. Annie, porém, hesita na transição para o "mingling", a parte mais lucrativa, preferindo a arte da dança à solicitação direta, mostrando seus limites dentro daquele ecossistema.

Uma Busca por Conexão

A narrativa de Ervice deixa o leitor com uma série de perguntas: o que Annie tenta consertar? A epifania que ela busca virá da dança, do dinheiro ou de uma conexão humana? A performance é empoderamento ou aprisionamento? A cena final, com Annie se aproximando de um jovem tímido de aparência sensata, sugere que sua busca transcende a performance. Em meio à atmosfera onírica de fumaça e luz violeta, ao som de Prince, e em um balé de desejo e contenção, a história de Annie se revela um convite à reflexão sobre a natureza da arte, do dinheiro e da busca incessante por algo mais profundo em meio à superficialidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub