A diretoria da Agência Nacional do Petróleo (ANP) postergou para o dia 12 de junho a decisão sobre as novas regras que devem redesenhar o mercado brasileiro de GLP. Em reunião realizada na última sexta-feira, o colegiado sinalizou que, apesar do adiamento, há um consenso crescente em torno de medidas que visam ampliar a concorrência no setor, frequentemente descrito pela agência como concentrado e com margens elevadas. A proposta, que será submetida a consulta pública, deve manter pontos sensíveis que enfrentam forte resistência das grandes distribuidoras.

O movimento da ANP é justificado pela necessidade de dinamizar um mercado onde quatro grandes players — Copa Energia, Ultragaz, Supergasbras e Nacional Gás Butano — detêm cerca de 90% da participação total. Segundo a visão técnica da agência e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a estrutura atual limita a rivalidade e mantém preços em patamares que a regulação considera desnecessariamente altos para o consumidor final.

O dilema da segurança e o papel do Estado

Um dos pontos mais controversos da reforma é a liberação para que distribuidoras encham e comercializem botijões de qualquer marca, quebrando o modelo de fidelidade que hoje garante a rastreabilidade e a responsabilização técnica. Críticos, incluindo o Sindigás, argumentam que esse sistema de marca única é o único mecanismo eficaz para assegurar a qualidade do produto e a segurança do consumidor, além de ser uma barreira contra a informalidade que permeia o setor.

Contudo, a ANP adotou uma postura de distanciamento em relação ao impacto dessas mudanças na segurança pública. O superintendente de distribuição e logística da agência, Diogo Valério, foi enfático ao declarar que a criminalidade é um problema de polícia, e não de regulação econômica. A posição oficial é que a agência não possui capacidade operacional ou armada para atuar em áreas de risco, minimizando os alertas de estudos como o da ESEM-USP sobre a captura de pontos de venda pelo crime organizado.

Mecanismos de controle e a promessa de rastreamento

Para tentar mitigar os temores sobre a entrada de players informais, o relator da proposta, diretor Daniel Maia, aposta na tecnologia. A nova regulação deve exigir um sistema de rastreamento eletrônico por número de série e o envio diário de notas fiscais à ANP. A ideia é que o controle de dados até o consumidor final compense a perda do controle físico da marca, permitindo que as forças de segurança tenham acesso a informações estruturadas para combater o mercado paralelo.

Adicionalmente, a agência planeja exigir um capital social mínimo para novos entrantes, o que, na visão dos diretores, funcionaria como um filtro contra a entrada de operações de fachada. Mesmo com o ceticismo de parte do mercado sobre a eficácia de projetos-piloto em regulação econômica, a diretoria parece decidida a seguir com a implementação faseada, buscando um meio-termo que permita a entrada de novos competidores sem desestabilizar completamente a cadeia de suprimentos.

Tensões entre regulação e realidade de mercado

A disputa revela um choque de visões sobre o papel da agência reguladora. Enquanto as distribuidoras tradicionais defendem que a segurança é intrínseca à estrutura de mercado, a ANP busca ativamente o papel de agente de eficiência econômica, priorizando a redução de margens e a abertura de mercado. Essa divergência coloca o consumidor no centro de um debate sobre se a queda nos preços compensaria eventuais riscos de segurança e qualidade do produto.

Para o ecossistema de infraestrutura e energia, a decisão de junho será um divisor de águas. O sucesso da reforma dependerá não apenas da viabilidade técnica das novas regras, mas da capacidade do Estado de integrar dados regulatórios com ações de inteligência policial, um desafio que tem se mostrado complexo em diversos setores da infraestrutura nacional.

Incertezas sobre a implementação

O que permanece em aberto é a eficácia real do sistema de rastreamento prometido. Se a tecnologia proposta pela ANP não conseguir coibir a atuação de grupos criminosos que já impõem fornecedores em diversas regiões, a reforma pode acabar beneficiando apenas a informalidade, em vez de gerar a concorrência saudável pretendida.

O mercado aguarda agora a divulgação do texto final da proposta. A expectativa é entender se os ajustes feitos nos bastidores pelos diretores serão suficientes para aplacar as preocupações do setor ou se a resistência das grandes empresas se transformará em uma batalha judicial prolongada após a consulta pública. A trajetória da regulação do GLP, iniciada ainda no governo Temer, caminha para uma fase decisiva que testará os limites da atuação da ANP.

As próximas semanas serão de intensa negociação entre os diretores da agência e os representantes das distribuidoras. A forma como a ANP conduzirá a transição, especialmente no que diz respeito aos testes experimentais, definirá se a reforma será um motor de eficiência ou um catalisador de instabilidades operacionais em um serviço essencial para milhões de brasileiros. Com reportagem de Brazil Valley

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