É noite no quarto de brinquedos e os objetos se reúnem para uma conferência. A cena evoca imediatamente o universo de Toy Story, a franquia de filmes sobre a vida secreta dos brinquedos. Mas Woody e Buzz Lightyear não estão presentes. Os bonecos reunidos no quarto da jovem Maggy Howard são feitos de borracha, lata e madeira, e suas histórias, publicadas em 1866, revelam uma longa tradição de dar voz ao inanimado.

Embora a Pixar tenha sido aclamada pela originalidade do conceito em 1995, a premissa central de Toy Story tem raízes profundas em um gênero literário popularizado na Grã-Bretanha do século 18: a “it-narrative”, ou narrativa de objeto. Conforme detalha uma análise do portal literário Lit Hub, esses contos, narrados na primeira pessoa por itens como moedas, bengalas ou livros, convidavam os leitores a ver a sociedade pela perspectiva de coisas pequenas e ignoradas. O que começou como um exercício de imaginação literária, hoje, ecoa de forma literal nos microfones de nossos dispositivos.

Da sátira social à moralidade infantil

Longe de serem contos infantis, as primeiras “it-narratives” eram um gênero decididamente adulto e afiado. Autores como Joseph Addison em “Adventures of a Shilling” (1710) e Charles Johnstone em “Chrysal; or, the Adventures of a Guinea” (1760) usavam a jornada de uma moeda, passando de mão em mão, como um dispositivo para expor a ganância, a corrupção e a hipocrisia das diferentes camadas sociais. O objeto, testemunha silenciosa e imparcial, viajava por salões aristocráticos, becos miseráveis e gabinetes políticos, revelando a verdadeira natureza humana sem o filtro das convenções. Era uma plataforma ideal para a sátira social e uma crítica mordaz à nascente cultura de consumo.

No século 19, o gênero passou por uma transformação. O foco migrou da crítica social para a formação moral. Publicadas por organizações religiosas, essas novas histórias visavam um público com acesso limitado à leitura, principalmente crianças. Objetos com carga simbólica — como Bíblias e livros de oração — tornaram-se os narradores, elogiando comportamentos pios e diligentes e condenando a preguiça ou a desobediência. Muito antes do conceito de “Elf on the Shelf”, o brinquedo que vigia o comportamento das crianças para o Papai Noel, esses contos já transformavam os pertences infantis em auxiliares da vigilância parental, um instrumento didático para policiar a conduta dos jovens leitores.

O eco na era digital

Toy Story ressuscitou essa tradição para uma audiência global, mas com uma roupagem mais branda. Os brinquedos de Andy ainda julgam seus donos — recompensando crianças imaginativas e punindo as destrutivas —, mas seu universo gira em torno de lealdade e da magia do brincar, não de uma crítica estrutural da sociedade. A própria história do gênero mostra, no entanto, que as crianças também se apropriaram dessas narrativas para seus próprios fins, usando a perspectiva de objetos marginais para explorar temas de poder e agência, como mostram manuscritos infantis da família Hale, em New England, no século 19.

Hoje, a premissa da “it-narrative” deixou de ser ficção. Nossos objetos de fato nos observam. A grande ironia é que a evolução dessa fantasia literária culminou em tecnologias como Siri e Alexa. Elas são as “it-narrators” definitivas: circulam conosco em nossos bolsos e lares, testemunham nossas conversas mais íntimas e, diferentemente da moeda do século 18, não apenas observam, mas registram, analisam e aprendem. O antagonista do mais recente filme da franquia Toy Story é um tablet, cujo apelo viciante distrai a criança do brincar criativo — um sinal dos tempos. A linha entre o objeto que ganha vida na imaginação e o objeto que de fato escuta tornou-se quase imperceptível.

A longa jornada das narrativas de objetos, da sátira literária ao entretenimento infantil, parece ter sido um grande ensaio. Demos voz a coisas inanimadas para entender melhor a nós mesmos e a sociedade. Agora, em um mundo povoado por assistentes virtuais e dispositivos conectados, são esses mesmos objetos que, ao nos ouvir, ganharam o poder de nos moldar de volta, de maneiras que apenas começamos a compreender.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub