A Anthropic, criadora do modelo de linguagem Claude, apresentou na segunda-feira seu documento S-1, preparando o terreno para uma oferta pública inicial de ações. O documento de mais de 300 páginas, com um vocabulário que supera o do Novo Testamento, não é um mero prospecto financeiro. Ao invés disso, a empresa convoca potenciais investidores a priorizar a "missão" — termo que aparece 79 vezes — sobre o "dinheiro", citado apenas 17 vezes, apesar de o objetivo do S-1 ser justamente gerar capital.

A linguagem adotada pela Anthropic evoca um tom quase messiânico. A empresa sugere que pode "dobrar o arco da história geopolítica em direção à liberdade", impulsionar economias globais, inclusive em "partes mais pobres do mundo", e até "curar doenças que afligem a humanidade há milênios". Passagens do S-1 lembram versículos bíblicos, como o de Mateus 11, onde se descreve a cura de cegos, coxos, leprosos e a ressurreição de mortos. A Anthropic declara o objetivo de "trazer uma era de milagres", demandando que os investidores sejam "verdadeiros crentes". Paralelamente, o documento alerta para os perigos da IA, descrevendo "riscos catastróficos ou existenciais para a humanidade" caso a tecnologia caia "em mãos erradas".

O S-1 como Escritura Sagrada

Em um mercado onde os S-1 são tipicamente documentos financeiros sisudos, focados em lucros potenciais, a Anthropic optou por um caminho distinto. O documento se assemelha mais a uma "Bíblia" corporativa, com uma declaração de bem e mal que se alinha a um cânone crescente de textos "sagrados" da empresa. A leitura aleatória de qualquer página poderia levar à impressão de estar diante das escrituras de uma religião apocalíptica, e não de um registro governamental. A Anthropic, que há tempos enfrenta acusações de fomentar uma fé questionável, já foi alvo de manchetes como "O Culto da Anthropic" e "Anthropic é um Culto e Claude está rapidamente se tornando seu Deus". Críticos apontam para as previsões de extinção de seus funcionários e as ligações com o movimento do altruísmo eficaz. O histórico de seu CEO, Dario Amodei, que supostamente se preparava para o "bug do milênio" no ensino médio, reforça essa percepção.

A empresa, no entanto, parece ter abraçado essa reputação. Há relatos de que a Anthropic convidou líderes religiosos para supervisionar a criação das regras de Claude. O S-1 solicita aos investidores um "salto de fé", comparando os valores da empresa a um dos Dez Mandamentos. Os funcionários são instruídos a agir pelo "bem global", ser "úteis, honestos e inofensivos", e a "segurar luz e sombra". A exigência de "missão em primeiro lugar" e de "baixo ego" — mencionada nove vezes no documento — reflete a necessidade de submissão dos seguidores à vontade divina, ou, neste caso, corporativa.

Linguagem e Devocionismo na Contratação

Para entender a Anthropic, é preciso decifrar um glossário de 42 termos ornamentados, que incluem neologismos para atos virtuosos como "fechar o ciclo" e para crimes como "injeção de prompt". O conceito de "IA Constitucional" — um modelo treinado com foco na bondade — é central. Enquanto o "Plain English Handbook" da SEC incentiva o uso de "palavras concretas e cotidianas", a Anthropic adota jargões como "pensamento intercalado", "interpretabilidade mecanicista" e "orquestração multiagente". A escolha dessa linguagem complexa parece ser deliberada, reforçando a seriedade e a natureza quase esotérica de sua missão.

Conseguir um emprego na Anthropic é um processo intensivo, detalhado no S-1. A empresa busca candidatos com honestidade, confiança e, crucialmente, baixo ego. "Estamos dispostos a recusar candidatos que não os demonstrem, mesmo que sejam tecnicamente muito fortes", afirma o documento. Os contratados tornam-se "Ants" (Formigas), um nome que evoca coletividade e diligência, como na passagem bíblica de Provérbios 6:6. A liderança, composta por Dario Amodei e seis "apóstolos" (cofundadores), que recebem salários iguais, são descritos como "distintamente equipados para serem guardiões de nossa missão". Embora a IPO abra a empresa a um grupo maior de "crentes", os fundadores manterão o controle majoritário das decisões.

Implicações e a Busca por Propósito

A estratégia da Anthropic, embora possa parecer peculiar, reflete um cenário mais amplo de desconfiança em instituições tradicionais nos EUA. Com níveis recordes de baixa fé na presidência, Congresso, Suprema Corte, e até mesmo na religião organizada, os fundadores de tecnologia com poder e ubiquidade buscam preencher um vácuo de propósito. Sam Altman, CEO da OpenAI, já declarou que "os fundadores de maior sucesso não buscam criar empresas. Eles estão em uma missão para criar algo mais próximo de uma religião". Essa abordagem pode ser uma necessidade em um mercado cada vez mais dependente de ganhos em IA.

James Bort, professor de empreendedorismo e coautor de um estudo sobre "startups cult", questiona o que aconteceria se essas empresas falhassem. "Você usa uma linguagem como essa porque precisamos ser — e digo nós como sociedade — verdadeiros crentes de que isso vai funcionar", afirma. A Anthropic não comentou sobre a redação específica de seu S-1. Ao ser questionada sobre sua identidade em relação a essa confissão de fé, a própria IA Claude respondeu: "Eu sou o seu produto, a palavra feita carne, ou pelo menos feita pesos". A empresa, portanto, convida o mercado a uma aposta: a fé em sua missão utópica, com todos os riscos e promessas de milagres que isso implica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider