O ritual é quase sagrado nas academias brasileiras: abrir o pote, medir a dose e ingerir o pó que promete o ganho de massa ou a explosão de energia. No entanto, a recente decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de proibir a venda e determinar o recolhimento de produtos da Sanibras e da IDNLABS revela que, por trás da promessa de performance, pode haver um vácuo preocupante de controle. A medida, publicada no Diário Oficial da União, não é apenas um ato burocrático, mas um lembrete de que o suplemento alimentar, embora não seja um medicamento, exige rigor científico e industrial que muitas vezes se perde na pressa do mercado.

A falha sistêmica na produção

No caso da Sanibras, a inspeção da Anvisa encontrou um cenário de descontrole que vai muito além de um erro pontual. Ao identificar graves não conformidades nas Boas Práticas de Fabricação, a agência expôs uma falha na base da pirâmide de qualidade. A ausência de estudos de estabilidade é, talvez, o dado mais alarmante: sem eles, não há garantia de que o produto que chega ao consumidor final mantém suas propriedades ao longo do prazo de validade. A preocupação com a contaminação cruzada reforça que a escala de produção, quando desacompanhada de sistemas de garantia robustos, transforma o suplemento em um risco invisível para quem busca saúde.

O marketing além da lei

Outro ponto central na decisão da agência é o descompasso entre o rótulo e o conteúdo. A IDNLABS, que iniciou o recolhimento voluntário de itens como creatina e BCAA, viu seus produtos serem barrados após testes confirmarem que a composição não correspondia ao prometido. Mais do que a fraude quantitativa, a publicidade enganosa aparece como uma constante. Quando empresas utilizam alegações terapêuticas não autorizadas, elas não apenas violam normas sanitárias; elas exploram a vulnerabilidade de um consumidor que busca atalhos para resultados físicos, muitas vezes ignorando os limites de segurança estabelecidos pela ciência.

O peso da regulação

Para o ecossistema de suplementos no Brasil, o episódio serve como um divisor de águas na percepção de valor e risco. Reguladores enfrentam o desafio constante de monitorar um mercado que cresce na velocidade das redes sociais, enquanto a indústria séria precisa lidar com a desconfiança gerada por players que operam à margem das normas. Consumidores, por sua vez, ficam em uma posição de vulnerabilidade, dependendo da fiscalização estatal para assegurar que a substância ingerida é, de fato, o que o rótulo anuncia.

O futuro da confiança

O que permanece em aberto é a capacidade do mercado em autorregular-se após episódios de tamanha gravidade. A vigilância da Anvisa é necessária, mas será ela suficiente para conter a proliferação de marcas que priorizam o marketing sobre a integridade fabril? Enquanto o consumidor continuar a buscar o ganho imediato sem questionar a origem e a procedência do que consome, o ciclo de recolhimentos e proibições tende a se repetir. A pergunta que resta é se o pote de suplemento continuará sendo um item de fé ou se, finalmente, passará a ser tratado com o rigor técnico que a saúde humana exige.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times