Para manter a rede elétrica funcionando sem interrupções, a Espanha está pagando para que grandes indústrias desliguem suas máquinas. O mecanismo, chamado de Serviço de Resposta Ativa da Demanda (SRAD), já custou aos consumidores espanhóis quase €1 bilhão em remuneração fixa às empresas desde sua implementação em 2022, segundo reportagem do site Xataka.
O valor, que não inclui pagamentos variáveis por cada ativação, pode parecer exorbitante, mas expõe uma realidade incontornável da transição energética: a estabilidade tem um preço. Em um sistema cada vez mais dependente de fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica, gerenciar o equilíbrio entre oferta e demanda exige novas ferramentas. A Espanha optou por uma solução pragmática: em vez de apenas gerar mais energia, ela paga para que se consuma menos em momentos de estresse na rede.
O preço da flexibilidade
O SRAD funciona como um leilão de disponibilidade. Grandes consumidores de energia, como siderúrgicas e cimenteiras, comprometem-se voluntariamente a reduzir sua demanda quando solicitado pela Red Eléctrica, a operadora do sistema. Em troca, recebem uma dupla remuneração: uma parcela fixa, por estarem à disposição, e outra variável a cada vez que o serviço é acionado — geralmente à noite, quando a geração solar cessa, mas a demanda continua alta.
Este modelo transforma a demanda industrial de um passivo inflexível em um ativo de estabilização da rede. É uma forma de criar flexibilidade do lado do consumo, em vez de depender exclusivamente de usinas termelétricas a gás, que são caras e poluentes, para cobrir os picos. A leitura aqui é que o custo do SRAD é, na prática, o custo de garantir a confiabilidade de uma matriz energética mais limpa e volátil.
Um mal necessário e mais barato
A cifra de quase €1 bilhão assusta, mas a análise fria dos números mostra que a alternativa seria mais onerosa. O programa anterior de estabilização, conhecido como "serviço de interrompibilidade" e vigente de 2007 a 2019, custou um total de €5,2 bilhões, com uma média superior a €500 milhões por ano na maior parte do período. O modelo atual, portanto, representa uma economia substancial.
A comparação revela uma mudança estratégica na gestão da rede. Em vez de um subsídio amplo e caro, a Espanha migrou para um instrumento de mercado mais cirúrgico, ativado apenas quando necessário. O custo reflete o valor econômico de evitar um blecaute ou a necessidade de investimentos ainda maiores em infraestrutura de geração de reserva.
O caso espanhol é um estudo sobre a engenharia econômica por trás da descarbonização. A transição para uma matriz verde não se resume a instalar painéis solares; implica em redesenhar os mecanismos de mercado para lidar com a intermitência. A questão que se impõe a outros países, incluindo o Brasil, não é se a estabilidade da rede terá um custo, mas qual será o modelo mais eficiente para gerenciá-lo e distribuí-lo.
Source · Xataka





