Apenas um em cada quatro caças F-35 da frota americana atingiu a capacidade plena de missão no último ano, um dado que expõe as vulnerabilidades operacionais do programa militar mais dispendioso da história. Segundo um novo relatório do Government Accountability Office (GAO), o órgão de vigilância do Congresso dos EUA, a disponibilidade da aeronave tem apresentado um declínio contínuo, frustrando as tentativas do Pentágono de reverter o cenário com injeções massivas de capital.
O diagnóstico aponta que, entre os anos fiscais de 2021 e 2025, a taxa de prontidão total — que mede a capacidade do caça de executar todas as suas funções designadas — caiu de 38% para 25%. A situação é agravada por uma dependência estrutural de prestadores de serviços externos e gargalos persistentes na cadeia de suprimentos de peças de reposição, elementos que, somados, impedem que a aeronave cumpra seu papel estratégico como o principal ativo de combate da Força Aérea, da Marinha e do Corpo de Fuzileiros Navais.
O dilema da sustentabilidade técnica
O F-35 Lightning II, fabricado pela Lockheed Martin, foi concebido para ser a espinha dorsal da projeção de poder aéreo global, integrando capacidades de combate ar-ar, ataque ao solo e vigilância eletrônica. No entanto, o custo total de aquisição e manutenção do projeto, que já ultrapassa a marca de 2 trilhões de dólares, não se traduziu em eficiência operacional. O problema central reside na complexidade da manutenção, que exige uma logística altamente especializada e uma disponibilidade de peças que a cadeia atual não consegue suprir.
A leitura aqui é que o modelo de gestão do programa priorizou o desenvolvimento tecnológico de ponta em detrimento da robustez logística necessária para manter uma frota ativa e resiliente. O histórico de problemas mostra que a sofisticação da aeronave, embora seja seu maior trunfo em combate, torna-se um fardo quando o software apresenta falhas ou quando componentes específicos não estão disponíveis, deixando os caças parados em hangares por períodos prolongados.
Mecanismos de incentivo sob escrutínio
O Pentágono implementou, no ano passado, um plano de prontidão orçado em 13,7 bilhões de dólares, mas o GAO alerta que a estratégia pode exigir aportes adicionais. Um ponto crítico levantado pelo órgão é a falha nos mecanismos de incentivo contratual. Atualmente, o Departamento de Defesa paga taxas a empresas privadas para que estas otimizem a manutenção, mas o relatório sugere que tais incentivos não estão alinhados com o desempenho real das aeronaves.
Na prática, o sistema corre o risco de recompensar contratados por métricas que não se refletem na disponibilidade operacional das unidades. A dependência de terceiros, aliada a restrições de capacidade industrial para a fabricação de peças, cria um ciclo vicioso onde o aumento do investimento não gera um retorno proporcional na prontidão da frota, desafiando a lógica de mercado aplicada à defesa.
Tensões na cadeia de suprimentos e stakeholders
As implicações deste cenário transcendem as fronteiras dos EUA, afetando todos os aliados que operam o F-35. A necessidade de substituir aeronaves mais antigas, como o A-10 Thunderbolt II, coloca uma pressão ainda maior sobre o F-35, que precisará assumir missões críticas de apoio aéreo próximo. Se a taxa de disponibilidade não subir, o Pentágono enfrentará um déficit de capacidade operacional em um momento de tensões geopolíticas elevadas.
Para o ecossistema de defesa, o caso serve como um alerta sobre a fragilidade de sistemas de armas que dependem excessivamente de uma única fonte de manutenção. Reguladores e o Congresso americano agora pressionam por uma reestruturação nas metas de desempenho contratual, exigindo que o Joint Program Office do F-35 implemente controles financeiros mais rigorosos para evitar que o custo de manutenção continue a escalar sem resultados tangíveis.
Desafios para o futuro do programa
O que permanece incerto é se a estrutura atual do programa permite uma correção de rota sem uma mudança radical na relação com os fornecedores. O compromisso do Joint Program Office em aceitar as recomendações do GAO sinaliza uma tentativa de mudança, mas a execução prática dessas diretrizes enfrenta obstáculos logísticos e orçamentários consideráveis.
Nos próximos anos, a capacidade do Pentágono de equilibrar a inovação tecnológica com a viabilidade operacional será o principal termômetro para o sucesso do programa. A observação constante das taxas de prontidão e a eficácia dos novos incentivos contratuais definirão se o F-35 conseguirá, de fato, cumprir sua promessa como a aeronave mais avançada do arsenal ocidental.
A manutenção contínua de uma frota tão complexa exige um nível de coordenação que o sistema, até o momento, não demonstrou ser capaz de sustentar de forma consistente. A evolução desse quadro ditará a estratégia de defesa aérea global nas próximas décadas. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider



