Mudar-se para o Upper West Side de Nova York parecia, a princípio, um salto no escuro para a Aperture, a icônica fundação de fotografia acostumada por duas décadas ao epicentro artístico do Chelsea. A surpresa, no entanto, estava no caráter de um edifício de 1880, The Evelyn, e na visão dos arquitetos Stella Betts e David Leven, do escritório LEVENBETTS. Em vez de apagar o passado, eles decidiram torná-lo protagonista.
O resultado é um espaço que transporta a sensação de um loft do centro da cidade para um bairro residencial, um projeto que celebra a história em vez de neutralizá-la. A nova casa da Aperture, que funciona como livraria e galeria, não é um cubo branco, mas um diálogo entre o novo e o antigo, onde a arquitetura se torna parte da curadoria.
A história como tela
Durante a pesquisa, os arquitetos descobriram que parte do espaço era originalmente ocupada por cozinhas e refeitórios coletivos do antigo prédio residencial. Era um lugar de encontro. Essa vocação social foi reinterpretada, com a entrada principal posicionada exatamente ali. A decisão mais radical, contudo, foi preservar a “crueza do espaço”, como define Leven. As paredes de tijolo não foram cobertas; suas marcas, arcos originais e até as vigas de aço que sustentam a estrutura foram mantidas expostas.
Cada parede foi fotografada e catalogada, num processo quase arqueológico para decidir o que limpar e o que preservar. A filosofia, explicam os arquitetos, ecoa a própria natureza da fotografia: contar histórias. As imperfeições que seriam removidas em outros projetos aqui foram celebradas, transformando a superfície do edifício em uma tela texturizada que dialoga com as imagens que nela serão exibidas.
O cinza e a luz
Para distinguir o novo do antigo, todas as “inserções” — estantes, caixilhos de portas, balcões — foram pintadas em um tom neutro, apelidado de “Aperture Gray”. A cor, inspirada no Zone System fotográfico, é uma presença constante, mas discreta, projetada para recuar e permitir que os livros e as fotografias animem o ambiente. As finas linhas das estantes criam um contraponto visual à robustez das paredes de tijolo.
Outro desafio foi a “equidade da luz” em um espaço dividido em dois andares. Como o nível inferior recebe menos luz natural, a solução foi pintar todas as suas paredes de branco, mas mantendo a textura original da fundação de pedra. A inspiração, segundo os arquitetos, veio das pinturas brancas sobre branco de Robert Ryman, onde a ausência de cor revela a riqueza da superfície. A luz, assim, é compartilhada e refletida, garantindo que nenhum canto do espaço fique na sombra.
O projeto final deixa uma questão em aberto. Quando a fotografia é pendurada em uma parede que já conta uma história de mais de um século, quem está enquadrando quem? A obra enquadra um momento no tempo, enquanto o edifício enquadra a própria obra, em uma conversa silenciosa entre passado e presente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Aperture





