O universo da fotografia, em sua essência, é um diálogo contínuo entre o olhar do artista e a forma como essa visão é apresentada ao mundo. No cerne dessa interação, a publicação de livros — os photobooks — assume um papel de protagonista, transformando imagens em narrativas tangíveis e objetos de arte. A fundação Aperture, uma referência global no campo, acaba de revelar os 35 títulos que compõem a shortlist do seu prestigiado PhotoBook Awards 2026, um evento que, em sua décima quarta edição, mais uma vez sublinha a vitalidade e a diversidade da produção editorial fotográfica em escala planetária.
Recebendo um número recorde de candidaturas de cinquenta e seis países, o júri da premiação — composto por nomes como o artista Alejandro Cartagena, a diretora de design da Judd Foundation, Alexandra Cunningham Cameron, o editor-chefe da Aperture, Michael Famighetti, a diretora artística da Paris Photo, Anna Planas, e a curadora Anshika Varma — reuniu-se em Nova York para dias de intensa deliberação. O resultado é uma seleção que abrange três categorias principais: First PhotoBook, PhotoBook of the Year e Photography Catalog of the Year. A seguir, exploramos alguns dos 35 títulos finalistas, que não apenas celebram a arte em si, mas também a intrincada colaboração entre fotógrafos, designers e editores.
Um Olhar sobre a Inovação Editorial
A lista de 2026 é um testemunho da amplitude temática e estilística que a fotografia contemporânea tem explorado. Títulos como "Pants on Top of Shoes" de Ivan Anisimov, que documenta a peculiar forma como calças se drapejam sobre sapatos em Tbilisi, oferecem uma meditação sobre pertencimento e observação. "Gauchito Querido" de Amparo Baquerizas, por sua vez, reconstrói uma peregrinação a um santo popular argentino com uma abordagem que mescla screenshots de Google Street View e testemunhos, utilizando a cor vermelha como fio condutor. "Social Season" de Miranda Barnes mergulha na cultura dos bailes de debutantes negros em Detroit, tecendo um retrato de elegância e história afro-americana. Já "Looking Inside: Women with Life Sentences" de Sara Bennett, fruto de uma década de trabalho com mulheres em prisão perpétua, combina retratos com efêmeras pessoais, lançando uma luz compassiva sobre um sistema de justiça frequentemente opaco.
Nata Drachinskaya, em "Binom", desvenda a vida secreta de seu pai como criptógrafo, utilizando uma estrutura de dois volumes que reflete a dualidade de sua existência. "Cruising Diaries" de Franco Dupuy explora geografias do desejo queer anônimo através de um formato de bolso e imagens em preto e branco que capturam a clandestinidade noturna. "If a Flower Bloomed in a Dark Room, Would You Trust It?" de Jakob Ganslmeier e Ana Zibelnik aborda as tendências de "spiritual hustling" e "looksmaxxing" nas redes sociais, enquanto "The Sound of Dirt and Beauty" de Jesse Glazzard oferece um testemunho cru da juventude queer no Reino Unido. "Üruklyn" de Ma Hailun explora o potencial artístico de Xinjiang, celebrando as tradições de comunidades como os Uyghurs, e "Notation(s)" de Moeko Ishiguro propõe uma experiência tátil e escultórica, fugindo da paginação tradicional para revelar imagens de fenômenos mundanos.
Tensões Geopolíticas e Identitárias
A fotografia, como ferramenta de documentação e reflexão, frequentemente se debruça sobre questões sociais e políticas complexas. "Only Have Faith" de Adél Koleszár confronta o espetáculo da violência associada ao tráfico de drogas no México, focando no trabalho de um coletivo de mulheres que buscam seus entes desaparecidos. "Coincidence" de Jeremy Liebman tece uma narrativa sobre três gerações de sua família, entrelaçando memórias de infância com o avanço do Alzheimer em seu pai. "Turning Point" de Augustin Lignier questiona o conceito de fotografia perfeita através de uma série obsessiva de saltos repetitivos, enquanto "JJ VFF VV" de João Linneu retrata a jornada de uma gravidez desafiadora e o nascimento prematuro de seu filho, capturando a beleza em meio à dor.
"Make Me Beautiful" de Yufan Lu investiga as expectativas de beleza impostas às mulheres na China, visitando clínicas de cirurgia estética e examinando a indústria através de colagens e screenshots de redes sociais. "Swan Moon's Swan Moon" de Swan Moon é uma crônica diarística da experiência de crescer como coreano-americana em Los Angeles, misturando o cotidiano com cenas encenadas que evocam o glamour de Hollywood. "2, 3" de Peter Rauch, um arquiteto e fotógrafo, explora a infraestrutura de edifícios e corpos humanos com um olhar preciso e enigmático, reminiscente de uma documentação científica. "Dead Letter Room" de Allie Tsubota estabelece uma correspondência trans-histórica com o poeta e sobrevivente de Hiroshima, Hara Tamiki, explorando a memória e a perda através de imagens e cartas.
Joël van Houdt, em "Afghanistanism", reflete sobre o termo que designa o foco em problemas distantes enquanto se ignoram questões locais, documentando a vida no Afeganistão e traçando paralelos com o olhar do observador externo. "Mixedness Is My Mythology" de Farren van Wyk navega a existência entre culturas e comunidades, utilizando o autorretrato para questionar percepções de raça e identidade singular, subvertendo a estética colonial. "Silent Springs" de Michele Borzoni e Rocco Rorandelli documenta o ativismo climático na Europa, oferecendo um glossário visual da desobediência civil. "The Beds I Slept In" de Bieke Depoorter apresenta imagens de camas em que dormiu em viagens pelo mundo, criando um pathos de introspecção e reflexão sobre a jornada humana.
Comunidade, Resistência e Memória
Bérangère Fromont, em "République", foca nas jovens gerações que frequentam a Place de la République em Paris, capturando os sutis equilíbrios entre calma e resistência, o individual e o coletivo. "WALLS: A Visual Study on Border Geographies" de Roger Grasas interroga o conceito de fronteira como mecanismo de exclusão e controle, abrangendo geografias, testemunhos e estudos de caso em quatro continentes. "Chronograph" de Nick Haymes reúne mais de mil fotografias de um quarto de século para documentar a dinâmica familiar, alternando entre o caótico e o terno, e lembrando a fragilidade da vida. O pequeno formato de "This Is Not My Cat" de Takashi Homma serve como uma ode elegante a seu gato e às profundas conexões entre humanos e seus animais de estimação.
"Snow" de Sohrab Hura medita sobre o conflito na Caxemira disputada, contrastando a militarização da região com sua percepção turística, usando a paisagem nevada como metáfora para o que é visto e obscurecido. "Undercurrents" de Zhu Mo, um projeto de nove anos, desafia a narrativa tradicional com folhas soltas que podem ser rearranjadas, convidando o leitor a ser editor de suas próprias descobertas. "Passports" de Keisha Scarville reinterpreta uma foto de identidade do passaporte de seu pai com intervenções artísticas, explorando o amor filial e a relação ambígua entre pátria e diáspora. Finalmente, "And They Laughed at Me" de Newsha Tavakolian revisita seu arquivo de duas décadas de trabalho fotoperiodístico em Teerã, abraçando as imperfeições de suas primeiras obras como um retrato cru da memória e do crescimento artístico.
Perguntas em Aberto na Paisagem Editorial
A seleção para o PhotoBook Awards 2026 da Aperture, que será exibida na Paris Photo e em uma turnê internacional, não é apenas uma vitrine de talentos, mas um espelho das preocupações, anseios e investigações que moldam o discurso visual contemporâneo. Cada livro shortlistado representa um universo particular, construído com a linguagem universal da fotografia, mas interpretado através de sensibilidades únicas e intenções editoriais distintas. A diversidade de temas — da identidade cultural à política, da intimidade familiar à crítica social — reflete a capacidade da fotografia de se engajar com a complexidade do mundo.
O que essas 35 obras nos dizem sobre o estado atual da fotografia e de sua publicação? Elas apontam para novas direções na forma como contamos histórias visuais, ou reafirmam a força duradoura de abordagens consagradas? A resposta completa, certamente, virá com a revelação dos vencedores, mas a própria lista já oferece um panorama rico e instigante sobre o que significa fazer um livro de fotografia hoje: um ato de curadoria, de design, de escrita e, acima de tudo, de profunda conexão com o mundo através da imagem. A arte de transformar fotografias em livros é, em si, uma forma de resistência contra a efemeridade digital, um convite à contemplação e à descoberta.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Aperture





