A revelação de que os Estados Unidos e Israel teriam considerado o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad como uma alternativa política para o Irã após a morte do aiatolá Ali Khamenei expõe uma desconexão profunda entre o planejamento estratégico ocidental e a realidade interna da República Islâmica. Segundo reportagem do The New York Times, o plano envolvia articular a saída de Ahmadinejad da prisão domiciliar para que ele assumisse o controle do país, uma manobra que teria sido tentada logo no início do conflito, em fevereiro.

Essa estratégia sugere que o governo Trump teria aplicado ao Irã uma lógica de mudança de regime baseada em precedentes como o da Venezuela, onde a troca de uma figura central poderia, em tese, desestabilizar o poder. No entanto, o caso iraniano demonstra uma estrutura de governança significativamente mais resiliente e complexa, onde a autoridade não emana de uma única cadeira, mas de uma rede imbricada de instituições teocráticas e militares.

A natureza do poder iraniano

A República Islâmica não opera como um regime personalista tradicional. O poder reside em uma aliança inquebrável entre o establishment teocrático e o aparato de segurança, liderado pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). Ahmadinejad, embora tenha sido um nome de peso entre 2005 e 2013, sempre foi uma figura periférica em relação ao núcleo de decisão real do país.

Sua trajetória, marcada por um populismo voltado às classes mais baixas e uma postura confrontadora, nunca lhe garantiu controle sobre as forças de segurança. Durante sua presidência, o IRGC expandiu sua influência econômica e política, mas sempre sob a égide e a lealdade exclusiva ao aiatolá Khamenei. Quando a relação entre o ex-presidente e o líder supremo se deteriorou, o aparato de segurança rapidamente abandonou Ahmadinejad, isolando-o politicamente.

O erro de cálculo estratégico

A tentativa de usar Ahmadinejad como um "insider" capaz de reorientar o Estado iraniano ignora o histórico de vigilância e repressão do regime. O IRGC foi estruturado para resistir a infiltrações e golpes, mantendo uma coesão ideológica que sobrevive à substituição de indivíduos. A ideia de que um ex-líder em desgraça poderia comandar essa estrutura após uma intervenção estrangeira carece de respaldo na dinâmica de poder local.

Além disso, o histórico de Ahmadinejad como um crítico interno que acabou rotulado como parte de uma "corrente desviante" mostra a fragilidade de qualquer tentativa de cooptação. Washington parece ter confundido a remoção de um governante com a construção de uma autoridade legítima, subestimando a capacidade de autodefesa do sistema teocrático iraniano.

Implicações para o futuro regional

Este episódio levanta questões sobre o julgamento estratégico dos formuladores de política nos EUA e em Israel. Se a premissa inicial de que o regime colapsaria facilmente foi baseada em uma leitura equivocada dos atores internos, o risco de erros subsequentes nas negociações de paz ou em cenários pós-conflito é elevado. A falta de compreensão sobre a base de sustentação do regime pode levar a soluções que, na prática, são inalcançáveis.

Para analistas, o caso serve como um alerta sobre os perigos de projetar modelos de mudança de regime em Estados com estruturas de segurança altamente institucionalizadas. A crença de que qualquer figura pública reconhecível pode servir como um facilitador de transição revela uma visão simplista que pode comprometer a estabilidade regional a longo prazo.

O que permanece incerto

A ausência de informações sobre o paradeiro de Ahmadinejad após o início das hostilidades e sua suposta lesão em ataques indicam que o cenário é ainda mais volátil do que o previsto. O episódio deixa claro que, independentemente das intenções externas, o destino do Irã continua sendo ditado por forças internas que o Ocidente ainda luta para decifrar.

O monitoramento das próximas movimentações do IRGC e a forma como o regime consolidará sua sucessão serão cruciais para entender se as lições deste erro estratégico serão assimiladas ou se a política externa continuará a operar sobre premissas falhas.

Com reportagem de Brazil Valley

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