As operadoras de telefonia móvel na Europa estão gradualmente aumentando sua participação nas vendas de smartphones, um reflexo não de um aumento no volume total de dispositivos comercializados, mas sim da contração mais acentuada em outros canais de venda. Dados da Counterpoint Research indicam que as vendas de novos smartphones através das operadoras europeias registraram uma queda de 4% no segundo trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Contudo, as vendas de aparelhos pelo mercado aberto – que inclui varejistas independentes e vendas diretas dos fabricantes, geralmente de aparelhos desbloqueados – sofreram uma retração mais expressiva de 11%.
Este cenário favorece as operadoras, que viram sua participação no mercado europeu de smartphones crescer de 35% para 36% no período analisado. O mercado aberto, embora ainda represente a maioria, perdeu terreno. A mudança é parcialmente atribuída à chamada "crise de memória" impulsionada pela inteligência artificial, que gerou escassez de componentes essenciais como DRAM e NAND flash, impactando a produção de smartphones e PCs. O consequente aumento de preços afetou de forma mais severa o segmento de entrada, tornando a produção de dispositivos de baixo custo comercialmente inviável, segundo relatos.
Ascensão da Apple e o Canal de Contratos
A Apple emergiu como um dos principais vetores dessa mudança, superando a Samsung em participação de mercado no canal das operadoras europeias. Esse desempenho é impulsionado pela natureza dos contratos de telefonia móvel, que distribuem o custo do aparelho ao longo de pagamentos mensais. Essa modalidade torna dispositivos mais caros, como os iPhones, mais acessíveis a um público mais amplo, que de outra forma poderia optar por modelos mais básicos no mercado aberto. Enquanto isso, Motorola e vivo se destacam como as marcas com crescimento mais rápido dentro desse mesmo segmento de operadoras.
O Impacto da Crise de Componentes
A crise de semicondutores, particularmente a escassez de chips de memória, tem sido um fator determinante na dinâmica do mercado. A elevação dos custos de produção para dispositivos de entrada tornou a margem de lucro nesses aparelhos praticamente inexistente. Isso leva fabricantes a priorizarem modelos de maior valor agregado, que se alinham melhor com as ofertas das operadoras. A tendência de as operadoras ganharem mais participação de mercado deve persistir nos próximos trimestres, enquanto o segmento de baixo custo continuar a sentir os efeitos da escassez de componentes.
Varejo Independente e o Mercado de Usados
Em contrapartida, o varejo independente tem intensificado suas atividades promocionais, buscando mitigar o impacto dos aumentos de preço e estimular as vendas. Essa estratégia pode ajudar a conter a perda de participação do mercado aberto. Paralelamente, o mercado de aparelhos usados, ou de segunda mão, tem se mostrado uma alternativa cada vez mais atraente. As previsões indicam um crescimento de 12% no volume de negócios neste segmento para o ano corrente, como consequência direta da dificuldade em adquirir novos smartphones a preços acessíveis.
O Futuro dos Smartphones e IA
Olhando para o futuro, a inteligência artificial generativa promete transformar ainda mais o ecossistema de smartphones. A Counterpoint Research projeta que, até 2027, 80% dos smartphones de ponta incorporarão capacidades de IA agentiva. Isso significa que os dispositivos terão softwares capazes de tomar decisões e executar ações em nome do usuário, antecipando necessidades e otimizando tarefas. Essa evolução tecnológica pode redefinir o valor percebido dos aparelhos e, consequentemente, os modelos de negócio e as estratégias de venda no setor.
A dinâmica atual do mercado europeu de smartphones, marcada pela retração do segmento de entrada e pela ascensão de canais de contrato, sinaliza uma reconfiguração nas relações de poder entre fabricantes, operadoras e varejistas. A Apple capitaliza essa mudança, enquanto a crise de componentes e o avanço da IA moldam as próximas etapas dessa evolução. Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Register





