Nos últimos anos, o capital de risco se concentrou nos laboratórios de pesquisa que constroem os modelos fundamentais de inteligência artificial, resultando em valuations estratosféricos para empresas como OpenAI, Anthropic e xAI. Agora, um novo movimento ganha tração: o capital começa a fluir com a mesma intensidade para a camada de aplicação, onde startups usam essa tecnologia para resolver problemas de nicho.

A Applied Intuition, uma empresa de software para treinamento e simulação de veículos autônomos, é o mais recente exemplo dessa tendência. Segundo reportagem do The Information, a companhia recebeu ofertas de investimento que a avaliam em pelo menos US$ 30 bilhões. As propostas podem levar a startup a levantar uma nova rodada de, no mínimo, US$ 1 bilhão nos próximos meses. O movimento sinaliza uma tese de investimento que se expande para além da infraestrutura de IA e passa a focar nas empresas que a utilizam de forma prática.

A Camada de Aplicação e a Conta do Capex

Enquanto a Applied Intuition atrai capital com um produto de software verticalizado, os desenvolvedores de modelos de base continuam a enfrentar uma corrida por capital intensivo para infraestrutura. A Anthropic, uma das principais concorrentes da OpenAI, está em negociações finais para construir seu primeiro data center no Japão, segundo o Nikkei. Com uma capacidade projetada de até 500 megawatts, a instalação seria uma das maiores do país, evidenciando os custos contínuos e crescentes de computação e energia necessários para treinar e operar modelos de fronteira.

Essa dinâmica cria um contraste claro no mercado. De um lado, os laboratórios de IA, como a Anthropic, precisam de bilhões de dólares em capex apenas para se manterem competitivos na corrida tecnológica. De outro, empresas como a Applied Intuition, embora também de alta tecnologia, operam com um modelo mais próximo ao de software-as-a-service (SaaS), onde as margens e a escalabilidade podem parecer mais atraentes para uma classe de investidores que busca retornos sem a mesma exposição ao risco de infraestrutura pesada.

Valuations, Especulação e o Mercado Privado

O valuation de US$ 30 bilhões atribuído à Applied Intuition, embora ainda não confirmado, a colocaria no mesmo patamar de gigantes da tecnologia e de alguns dos próprios laboratórios de IA. A cifra reflete o otimismo dos investidores no potencial de monetização de aplicações de IA em setores de alto valor, como o automotivo. Trata-se de um sinal concreto, vindo de ofertas no mercado privado, sobre onde o capital institucional está disposto a ser alocado.

Em paralelo, a especulação sobre o valor das empresas de IA atinge níveis elevados também no varejo, como indicam sinais de mercados de previsão. Na plataforma Polymarket, por exemplo, mercados especulativos sobre o valuation futuro da OpenAI atraem volume, mas refletem mais o sentimento do público e a natureza de aposta do que uma análise fundamental. Esses sinais, ainda que não verificados e de natureza especulativa, ilustram o frenesi em torno da categoria, contrastando com as negociações privadas e estratégicas que envolvem a Applied Intuition.

O cenário atual do venture capital em IA parece se dividir entre duas grandes teses. Uma continua a financiar a dispendiosa corrida armamentista por capacidade computacional dos modelos fundamentais. A outra, cada vez mais proeminente, aposta que o valor real será capturado na camada de aplicação, por empresas que resolvem problemas específicos de indústrias trilionárias. A trajetória da Applied Intuition será um termômetro importante para validar qual delas prevalecerá.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Information