A Arábia Saudita está empenhada em construir uma rota alternativa ao Estreito de Ormuz, vital para o transporte de petróleo. Amin Nasser, CEO da Aramco, anunciou planos para expandir a capacidade do oleoduto Leste-Oeste, conhecido como Petroline, de cerca de 7 milhões para 10 milhões de barris por dia. A iniciativa, que também envolve estudos para novas rotas de exportação, visa diminuir a dependência do reino em relação ao estreito, que se tornou um ponto de atrito geopolítico.
O plano da Aramco espelha declarações anteriores do Ministro da Energia saudita, Príncipe Abdulaziz bin Salman, que indicou um prazo de dois a três anos para a conclusão da expansão. Essa estratégia surge em um contexto de tensões regionais elevadas, que já afetaram a produção de petróleo saudita. Antes do conflito, a produção do reino ultrapassava os 10 milhões de barris diários, mas caiu para menos de 7 milhões durante os primeiros seis meses de escalada de tensões, recuperando-se para cerca de 8 milhões em setembro, segundo a Agência Internacional de Energia.
Oleoduto sob fogo e incertezas
O Petroline estende-se por aproximadamente 1.200 quilômetros, conectando o centro de processamento de Abqaiq, no Golfo Pérsico, ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Antes das atuais tensões, o oleoduto transportava cerca de 2 milhões de barris diários. A Aramco conseguiu aumentar esse volume para sua capacidade total de 7 milhões de barris em poucas semanas, com cerca de 2 milhões destinados a refinarias sauditas e o restante para exportação. Essa operação contribuiu para um aumento de 25% no lucro da Aramco no primeiro trimestre.
No entanto, a adição de 3 milhões de barris diários representa um desafio considerável. Gilbert Metcalf, professor visitante na MIT Sloan School of Management e ex-subsecretário adjunto do Tesouro dos EUA para Meio Ambiente e Energia, avalia que mesmo um aumento para 10 milhões de barris por dia adicionaria apenas cerca de 2% ao mercado global de petróleo. "Isso poderia baixar os preços um pouco, mas há muita incerteza aqui", afirma Metcalf. Ele destaca a vulnerabilidade do oleoduto a ataques de drones e mísseis, além da incerteza sobre a capacidade de refino disponível para processar o volume adicional.
Vulnerabilidade e riscos à segurança
A vulnerabilidade do Petroline não é teórica. O oleoduto já sofreu ataques em 2019, quando drones Houthi atingiram uma estação de bombeamento. Este ano, os ataques se intensificaram: em abril, uma estação de bombeamento foi atingida, reduzindo o fluxo em cerca de 700.000 barris por dia antes da restauração da capacidade total. Em setembro, drones lançados do Iraque atingiram a linha em regiões de Riade e Medina, forçando um desligamento preventivo. Recentemente, em outubro, um ataque em uma estação de bombeamento em Khurais, embora com relatos conflitantes sobre a interrupção do fluxo, adicionou mais um ponto de preocupação.
A extremidade do Mar Vermelho da rota também enfrenta pressão. Os Houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, declararam um bloqueio marítimo à Arábia Saudita em julho e, em setembro, assumiram o controle da área ao redor do Estreito de Bab al-Mandab, um ponto de passagem crucial para navios que saem de Yanbu.
Ormuz ainda dita o ritmo
Mesmo com a operação fluindo sem interrupções, a expansão do Petroline pode ter um impacto limitado na dependência global do Estreito de Ormuz. Metcalf argumenta que "mover mais petróleo para o oleoduto não alivia a pressão para a abertura do Estreito de Ormuz". Ele observa que os fluxos de petróleo através de Ormuz estão significativamente abaixo dos níveis pré-conflito, e as ameaças no Bab al-Mandab aumentam os riscos para a produção saudita. Dados de embarcações confirmam essa visão, com exportações por Ormuz em setembro representando apenas 44% do nível de fevereiro.
Outros produtores do Golfo também buscam soluções de longo prazo, como um novo oleoduto em desenvolvimento nos Emirados Árabes Unidos. A Arábia Saudita, proprietária de 81,5% da Aramco, busca consolidar sua posição no mercado global de energia, mas a dinâmica de poder regional pode estar mudando, com o Irã ganhando proeminência após os ataques em seu território, uma inversão que seria impensável há um ano.
Perguntas em aberto no cenário energético
A expansão do Petroline representa um movimento estratégico da Arábia Saudita para garantir a segurança de suas exportações de petróleo em um cenário geopolítico volátil. No entanto, a eficácia dessa estratégia em influenciar os preços globais do petróleo permanece questionável, dada a magnitude do mercado e os riscos inerentes à infraestrutura saudita. A capacidade de processamento e a estabilidade regional são fatores cruciais que determinarão o sucesso a longo prazo dessa iniciativa.
O futuro da segurança energética da Arábia Saudita e seu impacto no mercado global dependerão da capacidade do reino de mitigar os riscos de segurança, garantir a capacidade de refino e navegar pelas complexas relações geopolíticas do Oriente Médio. A resiliência da infraestrutura energética saudita diante de ataques contínuos e a evolução das tensões regionais serão pontos-chave a serem observados.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune


