Sob a cúpula silenciosa do D.C. War Memorial, um som dissonante rompeu a solenidade habitual da capital americana nesta semana. Não eram os passos de militares ou o burburinho de turistas, mas o chiado sintético e os bips frenéticos de máquinas de arcade dos anos 90. O coletivo artístico The Secret Handshake instalou três gabinetes de fliperama no coração do monumento, oferecendo uma experiência que, à primeira vista, parecia um tributo nostálgico, mas que rapidamente se revelava uma crítica corrosiva à política externa da administração Trump. O jogo, batizado de "Operation Epic Furious: Strait to Hell", convida o usuário a encarnar o presidente e decidir entre tomar uma Diet Coke ou declarar guerra ao Irã, transformando um conflito real e letal em uma mecânica de jogo de 8 bits.

A estética da banalização

A escolha da forma não foi um exercício de estilo gratuito, mas uma resposta direta à linguagem visual adotada pela Casa Branca. O coletivo afirma que a decisão de criar um jogo surgiu ao observar como a administração Trump utilizava filmagens que misturavam cenas de filmes de ação e jogos como Call of Duty com imagens reais de bombardeios. Ao transformar a morte em um produto estético "legal" e fantástico, o governo teria, segundo os artistas, esvaziado o peso ético da guerra. O arcade, portanto, atua como um espelho distorcido: ao adotar a mesma estética de videogame para retratar o conflito real, o coletivo força o espectador a confrontar o absurdo dessa mediação digital da violência.

Mecânicas de um teatro absurdo

No jogo, a lógica da guerra é substituída por incentivos bizarros e satíricos. Em vez de munição convencional, os jogadores utilizam "culpa católica" ou postagens na Truth Social para avançar. O objetivo final é a abertura do Estreito de Hormuz, alcançada através da coleta de interações digitais, ridicularizando a dependência da administração em narrativas de redes sociais para sustentar operações militares. Personagens como o vice-presidente JD Vance e o secretário de Defesa Pete Hegseth aparecem em versões caricatas, com Hegseth abrindo o jogo com uma promessa de "libertar petróleo" com deltoides preparados para o combate. A presença de Vladimir Putin como um centauro sem camisa completa o quadro de um surrealismo político que beira o pesadelo.

O impacto no espaço público

A instalação em um memorial de guerra confere uma gravidade peculiar à intervenção. O contraste entre o local, dedicado à memória dos mortos em conflitos, e a natureza trivial e cínica do jogo, cria um choque inevitável. Relatos indicam que até mesmo membros da Guarda Nacional jogaram as máquinas, uma cena que encerra em si a própria tese do coletivo sobre a desumanização da guerra. O projeto não busca oferecer uma solução política, mas sim expor o mecanismo pelo qual a violência é normalizada quando filtrada através de telas e algoritmos de engajamento.

Reflexos de uma era digital

O que permanece após a partida terminar é a desconfortável sensação de que a fronteira entre o jogo e a realidade foi rompida de forma irreversível. Se a política externa pode ser conduzida como uma sequência de decisões em uma tela, qual é o valor da vida humana que habita o outro lado desse pixel? O Secret Handshake, com seu histórico de intervenções provocativas, parece sugerir que, enquanto a guerra for tratada como um simulador de patriotismo, a tragédia continuará a ser apenas mais um nível a ser superado. Resta saber se o público encontrará, fora da máquina, o comando de saída.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen