A Argentina, sob a gestão do presidente Javier Milei, anunciou um plano ambicioso para atrair capital estrangeiro e aliviar a pressão sobre suas finanças públicas: a venda de cidadania a estrangeiros abastados. A iniciativa, apelidada de 'passaporte dourado', permite que indivíduos façam uma contribuição não reembolsável de US$ 350.000 ao Tesouro argentino ou invistam US$ 800.000 em novos títulos públicos, que deverão ser mantidos por sete anos. Para famílias, o valor aumenta, com uma unidade familiar de quatro pessoas prevista para custar US$ 500.000. O objetivo principal é garantir um fluxo de dólares essenciais para o governo, que enfrenta pagamentos de dívidas externas substanciais, estimados em cerca de US$ 25 bilhões até 2027, e que tem limitado suas opções de financiamento ao evitar o retorno aos mercados internacionais de títulos.

O Contexto de uma Economia em Crise

A decisão de monetizar a cidadania reflete a urgência com que o governo argentino lida com a escassez de dólares. O país tem um histórico de volatilidade econômica, com inflação crônica, defaults de dívida e instabilidade política, o que historicamente levou sua própria elite empresarial a buscar oportunidades no exterior. Contudo, o governo Milei busca reposicionar a Argentina como um destino atraente para o capital global, implementando cortes drásticos nos gastos públicos, desregulamentando a economia e promovendo investimentos em seus vastos recursos naturais, como petróleo e minerais. A ideia do programa de cidadania por investimento surgiu durante uma visita de Milei a Sun Valley, Idaho, em julho de 2024, após executivos de tecnologia demonstrarem interesse na cidadania argentina.

Mecanismos e Atração de Investidores

Programas de 'visto dourado', que concedem residência em troca de investimentos, tornaram-se cada vez mais comuns globalmente, com cerca de 60 países oferecendo tais facilidades. No entanto, os programas de 'cidadania por investimento' vão além, oferecendo direitos mais amplos e um passaporte que abre portas internacionais. A Argentina se tornará o primeiro país sul-americano a aderir a este grupo seleto, que inclui principalmente pequenas nações caribenhas. O passaporte argentino é visto como um ativo valioso, com acesso sem visto a mais de 140 países, incluindo China, Rússia, a área Schengen da Europa e a maior parte da América Latina. Para indivíduos de regiões com restrições de visto, a cidadania argentina pode facilitar viagens e negócios internacionais, funcionando como um 'Plano B' estratégico em um cenário geopolítico incerto. Especialistas notam uma mudança no perfil dos clientes desses programas, com mais americanos e europeus buscando um 'porto seguro' fora de suas regiões de origem.

Implicações Geopolíticas e Riscos

A venda de cidadania, embora lucrativa, não está isenta de críticas e riscos. Programas de 'passaporte dourado' têm sido historicamente vulneráveis à corrupção e à lavagem de dinheiro, com órgãos como o Financial Action Task Force (FATF) alertando sobre o uso indevido desses esquemas por criminosos. Recentemente, o Tribunal de Justiça da União Europeia declarou o programa de 'passaporte dourado' de Malta ilegal, reforçando a preocupação de que a cidadania da UE não possa ser vendida. A Argentina, por meio de seu Ministro da Economia, Luis Caputo, prometeu rigor na seleção de candidatos, com agências de inteligência e órgãos de fiscalização financeira atuando na verificação de identidades, antecedentes criminais e fontes de fundos, visando proteger a 'posição internacional da cidadania argentina'.

Perguntas em Aberto e o Futuro

A eficácia e a sustentabilidade do programa argentino permanecem em aberto. A capacidade do país de atrair o volume esperado de investimentos — estimado em até US$ 2,5 bilhões — dependerá da confiança dos investidores em sua estabilidade econômica e política a longo prazo. A reputação da Argentina, marcada por crises recorrentes, pode ser um obstáculo. Será crucial observar como o governo lidará com as pressões internacionais e as preocupações com a integridade do programa, especialmente considerando o histórico de países que já abandonaram esquemas semelhantes por motivos de segurança e conformidade. A iniciativa, embora inovadora para a América do Sul, insere a Argentina em um debate global sobre a comercialização da cidadania.

A iniciativa argentina de vender cidadania representa uma jogada ousada em meio a desafios econômicos severos, buscando capitalizar um mercado global de mobilidade para milionários. Resta saber se essa estratégia trará os resultados esperados sem comprometer a integridade e o valor da cidadania argentina.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune