A arquitetura, em sua essência, tem o poder de moldar não apenas o espaço físico, mas também a experiência humana dentro dele. No entanto, o arquiteto Ariel André, fundador do estúdio parisiense GOLEM, propõe uma revolução nesse conceito: uma arquitetura que se estenda para além das necessidades e perspectivas humanas, abraçando outras formas de vida e diversidades corporais. Em um ensaio para a Designboom, André detalha sua visão de um design que busca o prazer e o bem-estar para um espectro mais amplo de seres, afastando-se da rigidez e das convenções do mundo construído atual.
André narra uma infância marcada por sonhos vívidos onde ele se transformava em uma abelha, um pássaro ou uma cobra, encontrando refúgio e bem-estar em uniões com a natureza. Essa experiência infantil, ele reflete, foi o embrião de sua jornada arquitetônica: a busca por dar forma física a um mundo guiado pelo prazer, em contraposição à realidade construída que, muitas vezes, dita e restringe a vida. Dos apartamentos que confinam almas aos aeroportos que tratam pessoas como mercadorias, o ambiente construído, segundo André, impõe dimensões e comportamentos, transformando a vida em um "mau sonho". Sua aspiração é inverter essa lógica, criando um mundo que se adapte aos seus habitantes, seja uma flor para adormecer, um ninho para abrigar ou uma superfície para deslizar, sempre com o objetivo de proporcionar prazer e realização para a mais ampla gama de seres.
Arquitetura Sensorial e Inclusiva
O projeto "Broken Hearts Bazaar", concebido para a Bienal de Bukhara, exemplifica essa abordagem. Ao invés de criar uma entrada tradicional para a bienal, André focou em uma experiência sensorial, especialmente para aqueles que não percebem a arquitetura visualmente, como pessoas cegas ou animais. O ponto de partida foi o olfato, inspirando-se nos mercados de especiarias da Rota da Seda. Os quiosques cônicos, feitos de madeira, foram revestidos com especiarias como páprica, endro, chá preto e trevo, cujas cores e aromas se tornaram a principal forma de descoberta. O resultado foi uma interação rica e inesperada: um visitante cego retornou com amigos para identificar os cones pelo cheiro, um guia local usou os aromas para enriquecer suas explanações sobre ervas medicinais, abelhas pousaram nas flores de trevo e gatos lamberam as paredes de páprica à noite. Esse projeto demonstra a capacidade da arquitetura de expandir quem o design serve, abrindo novas formas e espaços que enriquecem a experiência de vida.
Mobiliário Orgânico e Adaptável
A mesma filosofia se estende ao design de mobiliário. O "Amoreba" é um exemplo de superfície orgânica que se integra a interiores rígidos, transformando-os em ambientes contemporâneos. Inspirado pela visão de se deitar entre os relevos microscópicos de um cogumelo, André imaginou a superfície a partir da perspectiva de uma criatura minúscula. O "Amoreba" negocia curvas suaves, ângulos agudos e geometrias complexas, adaptando-se ao espaço e às atividades sociais planejadas pelos futuros habitantes. Essa abordagem, que parte do ponto de vista de seres microscópicos, permite a criação de novas formas e espaços que, assim como o liquens que se espalham sobre pedras e troncos, enriquecem a experiência de vida de todos.
Para Além do Antropocentrismo
A visão de André é uma resposta direta à condição de um mundo majoritariamente projetado por uma pequena minoria, cuja imaginação raramente se estende para além de si mesma. Ele advoga por uma arquitetura que transcenda o "eu", exercitando empatia e mudando de perspectiva para conceber novas formas que enriqueçam a vivência coletiva. Um exemplo disso é o sofá de 24 metros para a Diriyah Biennale Foundation em Riad. Documentando diversas posturas corporais em espaços públicos na Arábia Saudita, o sofá se torna uma infraestrutura pública que une diferentes culturas, gerações e hábitos corporais, permitindo que cada indivíduo se acomode em sua própria postura e abrindo espaço para conversas intergeracionais e interculturais.
Novos Olhos Sobre o Corpo e o Espaço
O projeto "Lamputée" adota um passo estético lateral, onde cada luminária é moldada a partir da forma de um membro amputado. Ao inverter e abstrair essa forma de seu contexto familiar, o que poderia evocar medo ou desconforto em uma perspectiva externa, torna-se uma fonte de beleza e um objeto colecionável. A responsabilidade dos arquitetos, na visão de André, é captar as necessidades expressas pelos corpos em sua pluralidade e projetar ambientes onde todos possam florescer, aninhar-se, forragear ou deslizar. A prática de GOLEM desafia convenções de design padronizadas, utilizando perspectivas negligenciadas, estéticas marginais e narrativas de comunidades sub-representadas e da vida não-humana para criar um futuro arquitetônico mais inclusivo e empático.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





