As críticas de Aristóteles à teoria das Ideias de Platão figuram entre as controvérsias mais célebres na história da metafísica. No entanto, a forma como Aristóteles aborda a posição dos platônicos em sua obra "Metafísica" é, por vezes, perturbadora. Ele parece particularmente desdenhoso, beirando o irônico, e suas descrições dos argumentos de seus oponentes, em certos momentos, assemelham-se a catálogos secos. É precisamente neste ponto que reside o interesse do "Peri Ideôn" (Sobre as Ideias) de Aristóteles. Este tratado não é apenas mais um texto polêmico contra a teoria das Ideias de Platão, mas sim o mais próximo que temos de uma reconstrução aristotélica dos argumentos em favor da teoria que ele criticava.

Essa abordagem foi exemplificada por Gail Fine em seu influente livro sobre o texto. Contudo, um problema intrínseco reside na natureza das fontes antigas. Como muitas obras da antiguidade, o "Peri Ideôn" não sobreviveu em sua totalidade. Todas as nossas fontes derivam de um extenso relato fornecido por Alexandre de Afrodísias (por volta de 200 d.C.) em seu comentário à "Metafísica" A.9. Isso levanta uma dificuldade significativa: o status do relato de Alexandre é ambíguo. Seria composto por citações literais de um único texto que ele consultou, ou seria apenas uma paráfrase? E, neste último caso, Alexandre teria introduzido outros elementos? De onde viriam esses elementos: de outros textos de Aristóteles, ou de fontes externas, talvez de argumentos próprios de Alexandre?

A Complexidade da Fonte: Alexandre de Afrodísias

Um novo volume coletivo, organizado por Michel Crubellier e Leone Gazziero, propõe examinar essas questões cruciais sobre o "Peri Ideôn" de Aristóteles. Em vez de tratar o relato de Alexandre como uma janela transparente para o texto perdido de Aristóteles, uma abordagem comum, o livro questiona até que ponto o relatório de Alexandre preserva o texto aristotélico original e em que medida ele foi reconfigurado pela agenda própria de Alexandre. O volume apresenta uma nova tradução francesa do relato de Alexandre sobre o "Peri Ideôn", juntamente com um texto grego ligeiramente revisado, além de oito estudos originais em francês e inglês, todos de reconhecidos especialistas na tradição aristotélica. Cada estudo foca em um argumento específico do texto, com a maioria analisando sua estrutura lógica, o que faz do volume uma excelente ferramenta de pesquisa sobre este texto perdido, assim como a bibliografia final atualizada.

No entanto, os estudos não são uniformes em sua metodologia. Leone Gazziero, em seu capítulo programático, utiliza o argumento do "terceiro homem" como estudo de caso. Ao analisar a composição de uma proposição específica, ele sugere que Alexandre, de fato, reelaborou sua fonte, justificando assim o questionamento da confiabilidade do relato de Alexandre sobre o "Peri Ideôn" como um todo. Essa perspectiva, de que Alexandre pode ter modificado o material original, é um fio condutor para alguns dos estudos, mas não é universalmente aceita ou aplicada da mesma forma por todos os colaboradores.

Divergências Metodológicas e Confiabilidade Textual

Victor Gysembergh, seguindo uma linha semelhante à de Gazziero, argumenta que Alexandre elaborou suas próprias objeções a uma teoria da causalidade, em vez de copiar textualmente o "Peri Ideôn". Ele se baseia na análise de passagens onde Alexandre utiliza estruturas linguísticas que indicam elaborações próprias. Michel Crubellier, por outro lado, adota uma abordagem metodológica similar, mas atribui maior confiança à confiabilidade do relato de Alexandre. Focando no "argumento do igual", Crubellier observa que Alexandre cita o "Peri Ideôn" de forma constante e sem as ressalvas usuais para suas próprias conjecturas. Essa ausência de ressalvas é vista por ele como evidência de que Alexandre considerava o "Peri Ideôn" uma fonte autoritativa para essa passagem.

Laura Castelli explora um argumento sobre a incompatibilidade das Ideias com o serem princípios. Ela defende que este trecho pertence ao "Peri Ideôn" e não a outra obra, o "De Bono", pois o argumento é claramente anti-platônico. Sua análise revela uma tensão não resolvida nas próprias convicções metafísicas de Aristóteles, sugerindo que o argumento reflete uma fase de instabilidade em sua concepção de um primeiro princípio imóvel, uma tensão que ressurgiria mais tarde na "Metafísica" Λ.

Outras Perspectivas e o Legado de Aristóteles

Outras contribuições do volume se afastam da questão da confiabilidade direta de Alexandre. Annick Jaulin argumenta que o "Peri Ideôn" pode não ter sido uma compilação de argumentos usados por Aristóteles, mas sim uma coleção desorganizada de argumentos que circulavam na Academia, independentemente de sua relevância para Aristóteles ou Alexandre. Ela sugere que o "Peri Ideôn" continha argumentos considerados "completamente falsos" por Alexandre, o que contradiz a ideia de uma forte ligação com as preocupações metafísicas aristotélicas.

Franco Trabattoni aborda a frase de Aristóteles sobre "argumentos mais rigorosos" (ἀκριβέστεροι λόγοι). Ele contesta a interpretação de que "rigorosos" signifique "mais convincentes", propondo que Aristóteles se referia a argumentos "mais precisos" ou "detalhados", possivelmente encontrados nos próprios diálogos de Platão, e não necessariamente em um texto aristotélico específico. Walter Leszl reavalia posições anteriores, retirando dois argumentos de sua edição original do "Peri Ideôn" e, como Trabattoni, rejeita a ideia de que a expressão "mais rigorosos" se refira à validade lógica dos argumentos, distinguindo entre argumentos válidos, mas fracos, e argumentos fortes com premissas falsas.

Francesco Fronterotta, por sua vez, examina a relevância do conteúdo de um argumento específico, o "argumento do pensamento", e chega a conclusões diferentes das de Fine, argumentando que a primeira objeção de Aristóteles já é abordada por Platão. O volume, em sua diversidade metodológica, demonstra que o estudo de um texto com status tão complexo e argumentos difíceis exige uma abordagem pluralista. Embora não ofereça uma conclusão definitiva sobre a confiabilidade do relato de Alexandre, o livro qualifica e questiona as convicções prévias do leitor, evidenciando a qualidade da obra e a necessidade de cautela filosófica e filológica, aliada a uma irredutível diversidade de métodos, ao se explorar o "Peri Ideôn".

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Notre Dame Philosophical Reviews