A cidade de Nova York, epicentro cultural global, mais uma vez se prepara para receber a Armory Week, um evento que marca o início da temporada de outono no circuito de arte. Com o fim das escapadas de fim de agosto, a cidade se enche de colecionadores, galeristas e entusiastas, ansiosos por desvendar as novidades que prometem agitar o cenário artístico. As galerias, após um período de menor movimento, estão prontas para apresentar o que há de melhor, em feiras e exposições que se estendem por toda a cidade.

Este ano, o circuito de feiras de outono chegou um pouco mais tarde, adiado para evitar a sobreposição com a Fashion Week e o U.S. Open, além de oferecer um respiro após a Frieze Seoul. No entanto, setembro não tem sido um mês de calmaria. Uma série de aberturas de galerias e grandes exposições em museus já tomaram forma, preparando o terreno para os cinco eventos principais: The Armory, Independent 20th Century, SPRING/BREAK, U-Haul Art Fair e a Printed Matter Book Fair. A cidade pulsa com a arte, e em meio a essa efervescência, oito exposições se destacam como imperdíveis, prometendo cativar o público até o final de outubro e além.

Lynda Benglis: A Maestria da Forma e Cor

Em um diálogo com a efervescência da Fashion Week, a exposição "KNOTTING, TYING, FOLDING" de Lynda Benglis na Pace Gallery emerge como um ponto focal. As obras da artista, com suas texturas metálicas e plissados audaciosos, serviram de inspiração para a recente coleção couture da Dior, evidenciando a influência duradoura de Benglis no universo da moda e do design. Desde os anos 1960, Benglis tem sido uma força pioneira, desafiando convenções com suas pinturas de cera e esculturas que exploram os limites da cor e da textura. A mostra na Pace Gallery é um compêndio de sua jornada artística, reunindo peças criadas ao longo de cinco décadas. Desde as primeiras "Sparkle Knot" até as mais recentes "Elephant Necklace", a exposição é um testemunho de sua curiosidade insaciável e de sua mestria em manipular materiais, explorando "os extremos de coloração e texturização", como ela mesma descreve.

Joseph Yaeger: O Silêncio das Memórias

As telas de Joseph Yaeger convidam a uma imersão em narrativas fragmentadas, onde a familiaridade se mistura ao mistério. "Agita", sua nova exposição na Gladstone Gallery, apresenta uma série inédita de trabalhos que aprofundam sua exploração sobre privacidade e desejo. Através de aquarelas sobre linho preparado, Yaeger constrói imagens luminosas em tons suaves e aveludados. A tensão em suas obras não reside no que é explicitamente dito, mas no que é silenciado, evocando memórias reprimidas que pairam no limiar da consciência. A experiência de contemplar seus quadros é como assistir a um filme em andamento, onde os personagens, anônimos e recortados, mantêm uma distância enigmática, mas ainda assim despertam uma profunda empatia por suas aflições contidas.

Alix Vernet: A Poética da Infraestrutura Urbana

Alix Vernet transforma elementos da infraestrutura urbana em esculturas que ressoam com a poética do cotidiano. Em "Landmarks", na Chapter NY, a artista utiliza partes de aparelhos de ar condicionado, cujas aletas de alumínio são moldadas em palavras e frases extraídas de placas de rua e conversas ouvidas. Essa abordagem crítica e ao mesmo tempo terna volta o olhar para aspectos industriais muitas vezes negligenciados, como os sistemas de climatização que garantem nosso conforto. As obras nascem de uma observação atenta das fachadas e das entranhas das cidades, onde a poeira, a umidade e a oxidação acumulam histórias. Peças de máquina, acabadas com palavras como "baby" ou "boy", ganham uma fragilidade inesperada, carregando em si a tensão das mudanças climáticas e das políticas ambientais, sem precisar de um discurso explícito.

Arthur Jafa: A Complexidade da Experiência Negra

A retrospectiva de Arthur Jafa no New Museum, intitulada "I Am Tony", encapsula a amplitude de sua prática artística ao longo de três décadas. A exposição, que abrange pintura, instalações de vídeo e cinema, esculturas e objetos de arquivo, é ancorada por seus trabalhos mais celebrados, como "Love is the Message, The Message is Death" (2016) e "The White Album" (2018). Jafa tem dedicado sua carreira a desvendar as múltiplas facetas da vida afro-americana, utilizando música, cinema clássico, quadrinhos e até mesmo conteúdos de redes sociais para confrontar o espectador com a história complexa e as obsessões contemporâneas da nação. Sua obra exige uma metabolização profunda, convidando à reflexão muito depois da visita ao museu.

Outras Vozes na Armory Week

A Armory Week deste ano também destaca outros artistas cujas obras provocam e inspiram. Taryn Simon, no Solomon R. Guggenheim Museum, com "Father Country, I Do Love You", mergulha nas complexidades da vida americana através de fotografia, instalação e vídeo, em uma obra profundamente pessoal dedicada ao seu pai. Gordon Parks, cujas imagens icônicas capturam a luta pela igualdade e a beleza da vida afro-americana, é celebrado no Jack Shainman Gallery. Eddie R. Aparicio, em "Rubberneckers" na Jeffrey Deitch, utiliza a metáfora do "rubbernecking" (olhar para acidentes) para abordar a relação com o desastre e a injustiça infraestrutural de Los Angeles. Por fim, Lee Bul, na Hauser & Wirth, nos transporta para um universo de ficção científica com suas esculturas de cyborgs e paisagens apocalípticas, explorando a tensão entre utopia e distopia.

As exposições da Armory Week 2026 oferecem um panorama multifacetado da arte contemporânea, convidando o público a refletir sobre a condição humana, a experimentação material e as narrativas que moldam nossa percepção do mundo. Cada artista, com sua linguagem única, contribui para um diálogo vibrante que ecoa pelas galerias e museus de Nova York, deixando uma marca indelével na paisagem cultural da cidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast