Uma equipe de arqueólogos eslovenos e mexicanos anunciou a descoberta de uma cidade maia intacta na remota reserva da biosfera de Calakmul, no estado de Campeche, México. O sítio, batizado de Minanbé — termo que na língua maia iucateque significa "não há estrada" —, permaneceu oculto pela vegetação densa por mais de mil anos, protegendo estruturas que oferecem uma visão rara da vida no período do Clássico Terminal (600–900 d.C.).
Segundo reportagem da ARTnews, a localização foi confirmada após o mapeamento por tecnologia LiDAR revelar um centro urbano de 37 acres sob o dossel florestal. A expedição, liderada pelo arqueólogo Ivan Šprajc, encontrou um templo piramidal de 13 metros de altura e 14 altares e estelas, marcando um avanço significativo em três décadas de exploração nas Terras Baixas Maias centrais.
A preservação como exceção arqueológica
A ausência de estradas madeireiras na região foi apontada pelos pesquisadores como o fator determinante para a integridade do sítio. Diferente de outros locais na região de Campeche frequentemente afetados por saques, Minanbé apresenta estruturas, incluindo templos e palácios, em estado de conservação incomum para a arqueologia da região.
O templo principal, caracterizado pelo estilo arquitetônico Río Bec, datado entre os séculos VII e XII, é descrito como um dos exemplos mais bem preservados já registrados pela equipe. Esta preservação permite aos especialistas estudar elementos estruturais e artísticos que, em outros locais, foram perdidos devido à erosão ou intervenção humana.
Mecanismos de datação e evidências históricas
A análise dos monumentos, especificamente a Estela 1, forneceu aos pesquisadores um marco temporal preciso: o ano de 849 d.C. A inscrição calendárica "5 Ajaw" sugere que a construção de parte dos monumentos ocorreu pouco antes do abandono generalizado dos sítios na região, fenômeno que marcou o colapso do Clássico Terminal no século X.
Além disso, a descoberta de um altar intencionalmente quebrado, adornado com hieróglifos e a figura de um governante, levanta hipóteses sobre conflitos regionais. A presença de textos que remetem ao século VII em uma estrutura que foi posteriormente avariada sugere incursões de grupos externos, possivelmente vindos da Península de Yucatán, indicando tensões políticas ou militares que precederam o declínio da cidade.
Implicações para a historiografia maia
A descoberta de Minanbé amplia o conhecimento sobre a densidade populacional das Terras Baixas Maias, que abrigavam entre 9 e 11 milhões de pessoas no auge da civilização. Para os arqueólogos, o sítio não é apenas um conjunto de ruínas, mas uma evidência física da complexidade das redes de comércio e da hierarquia social que sustentavam esses centros urbanos.
A tecnologia LiDAR tem sido o motor dessa nova era de descobertas no México, permitindo que pesquisadores identifiquem estruturas ocultas em áreas de difícil acesso sem a necessidade de escavações invasivas imediatas. O desafio agora reside na conservação desses sítios frente à expansão das atividades humanas e às mudanças climáticas que afetam a integridade da floresta tropical.
O futuro da exploração em Campeche
Embora Minanbé ofereça respostas sobre o final do Clássico maia, o sítio também abre novas perguntas sobre a organização política entre as cidades-estado da época. A interpretação das inscrições restantes e a análise estratigráfica do solo serão fundamentais para determinar se a cidade foi um centro administrativo autônomo ou um satélite de centros maiores como Chactún.
O trabalho contínuo da equipe de Šprajc em Campeche sugere que ainda há muito a ser revelado sob a vegetação da reserva de Calakmul. A preservação de Minanbé serve como um lembrete da vastidão do patrimônio arqueológico ainda não documentado e da importância de políticas de proteção ambiental para a preservação histórica.
A descoberta de Minanbé reafirma a importância de integrar novas tecnologias geoespaciais ao trabalho de campo tradicional, permitindo que a história maia seja reescrita com base em evidências materiais intactas, longe das especulações que cercam o colapso da civilização. Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





