Investigações científicas na região da Ásia Ocidental tentam decifrar o enigma de milhares de formações rochosas gigantescas espalhadas pelo deserto. Estas construções, que abrangem cerca de 12 mil anos de história humana, são visíveis em sua totalidade apenas a partir de perspectivas aéreas. O projeto Aerial Archaeology in Jordan tem liderado o mapeamento desses vestígios, utilizando tecnologia de fotografia aérea para documentar o que as comunidades locais, historicamente, chamavam de obras dos antigos.

Os primeiros registros dessas estruturas ocorreram logo após a Primeira Guerra Mundial, quando pilotos britânicos em rotas de correio aéreo avistaram silhuetas complexas no solo. A falta de escavações diretas no terreno faz com que a maior parte do conhecimento atual dependa de observações remotas. Segundo o arqueólogo Robert Bewley, da Universidade de Oxford, a incerteza sobre a finalidade dessas construções, que incluem tipos conhecidos como rodas e medusas, ainda é absoluta.

O mistério das estruturas circulares

As construções, algumas superando o tamanho de um quarteirão urbano, apresentam desafios interpretativos significativos. A ausência de evidências materiais em escavações torna difícil determinar se funcionavam como assentamentos, centros de processamento de mercadorias ou áreas de armazenamento. A comparação frequente com as Linhas de Nazca, embora popular, carece de fundamentação arqueológica técnica que explique a função específica dessas estruturas no contexto do Oriente Médio.

O projeto APAAME, fundado originalmente por David Kennedy em 1978, tem sido fundamental na catalogação desses elementos. A análise de mais de mil quilômetros quadrados de deserto revelou uma complexidade arquitetônica que sugere uma organização social avançada, ainda que os propósitos exatos permaneçam obscuros. A transição da gestão desses dados para instituições locais na Jordânia é vista como um passo crucial para a preservação do patrimônio histórico da região.

Mecanismos de subsistência pré-histórica

Além dos grandes círculos, a paisagem desértica revela extensos muros de pedra conhecidos como cometas, ou kites. Estas estruturas funcionavam como armadilhas de caça, guiando manadas de gacelas para recintos fechados onde eram capturadas. A escala dessa prática é impressionante, com vestígios que se estendem da Armênia ao Iêmen, demonstrando uma engenharia de caça em massa que atravessou milênios e fronteiras geográficas.

A eficácia dessas armadilhas sugere uma compreensão profunda do comportamento animal e do terreno por parte das populações pré-históricas. A distribuição massiva desses muros indica que a estratégia de caça era um pilar central da economia de subsistência na região. A preservação desses sítios é vital para entender como civilizações antigas adaptaram suas técnicas de sobrevivência em ambientes áridos e desafiadores.

Implicações para a conservação e pesquisa

A necessidade de proteger esses sítios arqueológicos das ameaças modernas, como o desenvolvimento urbano e a erosão, é uma preocupação crescente. A colaboração entre arqueólogos internacionais e instituições jordanianas visa garantir que a gestão do conhecimento sobre essas estruturas seja feita por quem detém a ligação cultural com o território. O desafio reside em equilibrar a exploração científica com a preservação física das estruturas, muitas vezes frágeis e expostas às intempéries.

Para o ecossistema arqueológico, a descoberta contínua de novas estruturas — como as 15 identificadas recentemente — reforça a necessidade de tecnologias de sensoriamento remoto mais precisas. A arqueologia de paisagem, ao integrar dados de satélite e sobrevoos, permite uma visão panorâmica que o trabalho de campo tradicional não consegue alcançar. A integração dessas descobertas no inventário global de patrimônio histórico é um processo contínuo que redefine o que sabemos sobre a antiguidade na Ásia Ocidental.

Perspectivas e o futuro da exploração

O que permanece incerto é a cronologia exata da construção de cada tipo de estrutura e a possível interconexão entre elas. A hipótese de que seriam recintos para animais em rotas de peregrinação é apenas uma das muitas teorias em debate. O futuro das pesquisas dependerá da capacidade de realizar escavações seletivas que possam oferecer datação por carbono e outros indicadores materiais.

A observação contínua de novas imagens de satélite promete revelar ainda mais segredos escondidos sob a areia. A comunidade científica aguarda novas evidências que possam finalmente categorizar essas construções e dar nome a uma possível civilização que, até o momento, permanece silenciosa no tempo. A história da ocupação humana no Oriente Médio continua sendo reescrita a partir do céu.

A complexidade dessas descobertas convida a um reexame das técnicas de ocupação humana na antiguidade, desafiando a noção de que o deserto seria um vazio histórico. O trabalho de mapeamento aéreo não apenas preserva a memória, mas abre novas frentes de investigação sobre a resiliência das populações que moldaram a paisagem há milênios.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech