Dois proeminentes arqueólogos iraquianos foram detidos neste mês, em um episódio que intensifica as preocupações sobre corrupção estatal e a segurança de quem ousa denunciá-la. Ali Tabar, especialista em documentação aérea de sítios arqueológicos, foi preso sob a acusação de extorsão, enquanto Amir Al-Jumaili, professor da Universidade de Mosul, também foi detido após críticas públicas à apropriação de terras históricas. A comunidade arqueológica teme que as prisões sejam atos de retaliação pelas denúncias feitas pelos profissionais contra o Conselho Estatal de Antiguidades e Herança (SBAH), órgão responsável pela supervisão do setor no Iraque.
O Mecanismo da Suposta Retaliação
Ali Tabar, conhecido por seu trabalho pioneiro com drones para documentar sítios arqueológicos antes e depois de escavações, atuava até recentemente para o SBAH. Segundo o órgão, Tabar teria trabalhado com equipes internacionais, como as da Sapienza University of Rome e da University of Bern, sem o conhecimento da agência governamental e recebido pagamentos indevidos. Em nota oficial, o SBAH afirmou seu compromisso em combater a corrupção e proteger a reputação da instituição arqueológica iraquiana e suas relações com parceiros internacionais. No entanto, Tabar teria negado as acusações e sugerido que sua prisão estaria ligada a uma campanha contra a alegada corrupção no SBAH, que, nos últimos dez anos, teria permitido o desenvolvimento imobiliário em detrimento de centenas de sítios arqueológicos.
Sítios Históricos Ameaçados pela Corrupção
Um dos exemplos mais graves citados é o da antiga capital do Império Abássida, Samarra, onde Tabar havia realizado um levantamento indicando a presença de inúmeras igrejas e mosteiros cristãos, além de palácios califais. Apesar das descobertas, a área foi supostamente demolida no início deste ano. Tabar teria levado essas informações às instâncias competentes, incluindo a Comissão de Integridade do Estado, o Ministério Público e a polícia, antes de tornar o caso público nas redes sociais. Paralelamente, Amir Al-Jumaili, professor da Universidade de Mosul, também teria sido detido após criticar a apropriação de terras históricas em Nínive, capital do Império Neoassírio. A situação de Al-Jumaili após a prisão permanece incerta.
Implicações para o Patrimônio e a Liberdade de Expressão
A prisão de arqueólogos que expõem irregularidades lança uma sombra sobre a proteção do vasto patrimônio histórico do Iraque e sobre a liberdade de expressão no país. A comunidade internacional de arqueologia acompanha o caso com apreensão, temendo que tais ações inibam futuras denúncias e facilitem a destruição de sítios de valor inestimável. A falta de resposta oficial das universidades europeias envolvidas e a postura do SBAH, que defende as medidas como dissuasórias, aumentam a complexidade da situação e levantam questionamentos sobre a transparência e a governança no setor de antiguidades iraquiano.
Perguntas em Aberto
O caso levanta questões cruciais sobre o real motivo das prisões e a extensão da corrupção no SBAH. Será que as acusações de extorsão contra Tabar são procedentes ou uma cortina de fumaça para silenciar um denunciante? Qual será o impacto dessas detenções na preservação do patrimônio arqueológico iraquiano e na colaboração internacional? A resposta a essas perguntas definirá o futuro da proteção cultural no Iraque e a confiança em suas instituições.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





